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O que as pesquisas espaciais revelam sobre nutrição e vitaminas para a vida cotidiana na Terra

Os efeitos físicos de estar no espaço oferecem uma visão única de como nossos corpos funcionam na Terra.

Publicada em: 17/10/2018



Por milhares de anos, a nutrição tem sido um fator determinante do sucesso ou fracasso da aventura humana. Isto é especialmente verdadeiro em se tratando de voos espaciais. É essencial evitar que os astronautas fiquem desnutridos durante as missões, que muitas vezes duram meses. Mas a nutrição espacial moderna vai além disso. O objetivo é maximizar o desempenho da tripulação, reduzindo os efeitos prejudiciais do voo espacial e protegendo o grupo contra riscos de saúde a longo prazo, como câncer e doenças cardíacas. Pode parecer exagerado despender tanto esforço na nutrição de um punhado de gente que se aventura no espaço.

Mas, como acontece com a maioria das pesquisas espaciais, qualquer avanço que eles consigam tem implicações claras para quem fica na Terra.

Problemas de visão e fertilidade: qual é a relação?
Alguns astronautas estão retornando do espaço com problemas de visão. Isso inclui consequências na parte de trás dos olhos, como inchaço do nervo óptico. Em outras palavras: alguns deles deixaram o planeta com a visão perfeita, mas voltaram para casa precisando de óculos. Os efeitos da microgravidade no sistema circulatório já foram considerados culpados também por mudanças no fluido corporal e aumento da pressão sobre o cérebro.

Mas essas teorias não explicam por que apenas de 30% a 40% dos astronautas desenvolvem problemas nos olhos. Poderia haver outra razão por trás disso? Nossa teoria é de que diferenças genéticas podem afetar o funcionamento dos vasos sanguíneos. Quando combinado com um fator desencadeante durante o voo espacial - como mudanças no fluido corporal - isso causa mais vazamentos nos vasos sanguíneos dentro ou ao redor do olho. Isso faz com que a pressão aumente, levando a problemas oculares.

Membros da tripulação afetados demonstraram ter concentrações significativamente maiores de uma substância química chamada homocisteína, não só durante e após o voo, mas também antes dele. A homocisteína é parte de uma via bioquímica que existe em praticamente todas as células do corpo e requer muitos tipos diferentes de vitamina B para funcionar. Astronautas que relatam problemas oculares podem precisar de uma dose maior dessas vitaminas B do que outros, devido à sua composição genética.

Um elemento intrigante desta pesquisa é que mulheres com síndrome dos ovários policísticos (SOP) - um distúrbio endocrinológico caracterizado, por exemplo, pelo aumento da produção de hormônios masculinos e ciclos menstruais irregulares - também tendem a ter concentrações acima da média de homocisteína e problemas circulatórios semelhantes aos detectados em astronautas homens com problemas nos olhos.

A SOP afeta o funcionamento dos ovários. É a principal causa de problemas de fertilidade e acredita-se que atinja até 20% das mulheres. Esta condição não é bem compreendida e atualmente não há cura. Mas é possível que, ao compartilharem uma química sanguínea parecida, mulheres com SOP também possam se beneficiar com suplementos de vitamina B. Ainda não há provas concretas, mas a Nasa e médicos da Mayo Clinic, em Minnesota, estão fazendo estudos para investigar a potencial relação que existe. Esta pesquisa tem o potencial não apenas de resolver um dos principais riscos à saúde nas missões espaciais, mas também de entender melhor uma síndrome que afeta milhões de pessoas.

Estudar o espaço. Da cama

Estudos de nutrição de astronautas nos ajudam a entender como os humanos podem se adaptar a um voo espacial mais longo - e como podemos melhorar nossas vidas na Terra. Pesquisas no espaço geralmente têm de ser feitas com recursos limitados e enfrentar os desafios da falta de gravidade, ou da chamada "microgravidade". Às vezes, estudos relacionados à Terra são feitos ??com indivíduos saudáveis ??que ficam em repouso por semanas ou meses em uma posição de inclinação. Isso recria os efeitos da microgravidade e permite o monitoramento da perda óssea e muscular, entre outras mudanças.

Deficiência de luz solar
Nossa pele cria vitamina D quando é exposta à luz solar. Ela é necessária para manter ossos, dentes e músculos saudáveis. Os astronautas não recebem quantidade suficiente de vitamina D durante as missões espaciais, pois são protegidos da exposição solar e são incapazes de obter o bastante dessa vitamina a partir do que comem. Para estudar os efeitos da deficiência de luz solar, trabalhamos com equipes "hibernadas" no centro de pesquisa científica McMurdo na Antártida, onde o sol fica seis meses sem aparecer. Nesse centro, conduzimos experimentos para identificar se tomar suplementos de vitamina D seria um substituto adequado para a luz solar.

O estudo inicial descobriu que pequenos suplementos ajudavam a aumentar os níveis de vitamina D, mas que uma dose maior não trazia muito benefício adicional. Quando a Academia Nacional de Medicina dos EUA aumentou as exigências de vitamina D para os americanos, este estudo e muitos outros serviram como base para essa decisão. Nós também descobrimos que a resposta aos suplementos foi afetada pelo peso corporal, ou Índice de Massa Corporal (IMC). Quanto maior o IMC, menos eficazes são os suplementos de vitamina D. Isso faz sentido, porque a gordura prende a vitamina D e impede que ela permaneça no sangue.

Em nosso segundo estudo, analisamos a função e o estresse do sistema imunológico, que são preocupações tanto para os astronautas quanto para as tripulações que passam o inverno na Antártida. Descobrimos que esses fatores pareciam interagir uns com os outros. As pessoas que apresentavam sinais químicos de estresse e tinham baixos níveis de vitamina D eram mais propensas a achar difícil bloquear vírus como o da herpes labial que estavam adormecidos em seus organismos.

O segredo para ossos fortes
A perda óssea tem sido uma das maiores preocupações dos viajantes espaciais. Os astronautas tendem a perder cerca de 1% de sua massa óssea ao mês - a quantidade que os portadores de osteoporose perdem em um ano. A perda ocorre porque o corpo não coloca a gravidade sobre os ossos, e "decide" que você pode viver com um esqueleto menor. Em média, leva anos para a massa óssea se recuperar após uma missão.

Após anos de tentativa e erro, descobriu-se que várias mudanças específicas na dieta têm efeito positivo na saúde óssea. Os astronautas que tiveram maior ingestão de peixes como salmão e cavala perderam menos osso em órbita. Também descobrimos que as dietas com mais frutas, legumes e verduras eram benéficas para a resistência óssea. Por outro lado, grandes ingestões de ferro e sódio serviram para acelerar a perda óssea.

Evidências subsequentes mostraram que os astronautas que comiam bem tinham vitamina D suficiente e se exercitavam intensamente não sofriam perda óssea durante uma missão espacial de seis meses. Esta foi a primeira vez em 50 anos de voo espacial humano que os tripulantes conseguiram manter sua densidade óssea com nada além de dieta e exercícios. Essas descobertas também têm implicações diretas para literalmente todos na Terra, onde as mesmas mudanças na dieta podem ajudar a manter nossos ossos saudáveis.

Preparando o caminho
Ao nos aproximarmos da sexta década da viagem espacial humana, estamos ainda no início das incursões da humanidade no espaço. Os riscos associados à saúde são significativos e a nutrição pode fornecer a chave para missões mais longas e distantes a outros planetas, como Marte. Precisamos ousar e expandir nosso conhecimento de nutrição do século 21, unindo equipes médicas e científicas para possibilitar futuras explorações, beneficiando simultaneamente a humanidade.

 

Fonte: G1
Edição: F.C.



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