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ENTREVISTA


Clara Mello: “Eu sou muito visceral, eu sou muito intensa, muito, muito”

Veia lírica e astrologia dão o tom de novo livro da escritora piauiense Clara Mello. “Vênus em Câncer” foi lançado no final de janeiro, em Teresina.  

Para Clara, escrever é um mergulho profundo em si mesma

Publicada em: 27/01/2019



Sim, tudo é muito intenso para a escritora Clara de Melo e Silva, mas é bom explicar que a sua intensidade é acompanhada de leveza e sensatez de um modo todo particular. O motivo talvez esteja no seu mapa astral. Ela, que estuda Astrologia de forma séria, traz o Sol em Virgem e o planeta Vênus no signo da emoção. Para o leigo, isso pode parecer nebuloso, mas em Clara o que vibra é o sentido do poético, seja nos astros, na vida, nas pessoas, nas cidades, na arte e na floresta, esse outro lar.

Piauiense, radicada no Rio de Janeiro, ela expõe – em sua quinta obra, chamada “Vênus em Câncer” – toda a sua veia lírica. Clara Mello, como ficou conhecida, diz que demorou a se convencer de que é poeta, mas quem lê o seu mais recente livro, não entende o porquê. A oportunidade para confirmar isso aconteceu no final de janeiro, quando a escritora lançou oficialmente sua obra em Teresina.     

Pela natureza poética da escritora, nesta entrevista, feita pela jornalista Catarina Santiago e pelo diretor-presidente da Med Imagem, dr. José Cerqueira, procurou-se manter uma dicção própria da fala. Nela, Clara – que é filha do humorista João Cláudio Moreno e da cantora Patrícia Mellodi – nos conta sobre o seu processo criativo, fala da literatura feita por mulheres, da sua causa maior, que é a defesa da Amazônia, além do seu amor visceral pelo Piauí, que ela diz ser o seu “lugar”. A entrevista foi realizada no Olik Bistrô que, gentilmente, abriu suas portas numa bela manhã de janeiro.  

JC – Então, o que corre mais na veia de uma poetisa, é sangue ou poesia?

Os dois...né! Tanto a matéria quanto o abstrato são fortes do mesmo jeito. 

CS – Esse é o teu primeiro livro de poesia, é o quinto da carreira, sendo todos escritos em prosa, mas é o primeiro em poesia. Você traz um pouco da astrologia nele, que é uma paixão sua. Eu queria saber como nasceu esse livro?

Eu sempre fui leitora de poesia, mas eu tinha pouca poesia de volume e nenhuma confiança na minha poesia. Era um território mais desconfortável para mim. Eu estava me formando na faculdade e, aí, eu estava escolhendo o tema da monografia e escolhi Fernando Pessoa (poeta português) e astrologia. E fiquei muito tempo imersa tanto com a poesia quanto com a astrologia. Fiquei estudando bastante para fazer esse trabalho e, desse período de muito estudo, surgiu, além da monografia, esse livro, essa vontade de organizar o que eu já tinha de poesia.

Escrever é sempre doído, sempre, mas é muito prazeroso.

CS – Soube que o livro nasceu em guardanapos...fala um pouco do teu processo criativo na poesia...

Tudo meu é muito visceral, mas a poesia é mais ainda. Porque eu acho que como a prosa já é um território um pouquinho mais seguro para mim, porque já é uma coisa que eu faço há mais tempo, preciso, muitas vezes, trabalhar de encomenda, com prazos e tudo, é uma coisa que eu consigo fazer de maneira mais técnica, sempre muito visceral, porque é um traço da minha personalidade, mas, ainda assim, um pouco mais técnica. E a poesia não, eu não tinha muita segurança. Então, quando ela vem é sempre um estado de ebulição, por isso que esse livro foi escrito, assim, no ônibus, em guardanapo. Tem uns que eu escrevi...não tinha caneta...escrevo com lápis de olho, com a primeira coisa que tem na frente para poder guardar aquele verso. E ele (livro) é muito cotidiano, não foi uma coisa: “Agora eu vou parar e vou escrever”. Não, foi, tipo, estou comprando banana e anotando alguma coisa.

JC - O processo de criação da poesia, em ti, é prazeroso ou doloroso ou as duas coisas?

É os dois. Escrever é sempre doído, sempre, mas é muito prazeroso. É um misto de sensações, porque como é sempre uma coisa que para mim, pelo menos, é muito visceral, é como se eu tivesse que ir num lugar muito profundo de mim que não é tão fácil de acessar, mas quando vem, tem um prazer muito grande.

 

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Risadas e descontração marcaram entrevista

JC Mas a insatisfação com o que está no texto, você fica elaborando, apaga e corrige, não tá legal...é uma coisa que tem que refazer?

Fico, fico, fico...normalmente, é um detalhe. Vem tudo, aí tem uma frase que eu fico batendo cabeça até eu achar que está...

JC – E isso pode levar dias...

Isso pode levar anos, dias...(risos).

JC – Fica lá no canto e depois volta...

Tem uma poesia nesse livro que chama “Poesia incompleta”, que eu tinha anotado no bloco de notas do celular e eu salvei com esse nome, justamente, para eu me lembrar que estava incompleta, para eu trabalhar a poesia. Um dia, eu olhei e falei: “Eu acho que está completo, na verdade, eu acho que acabou.”, aí, pus, assim, e o nome ficou por conta disso, desse sentimento que não estava pronto. 

Escrevo com lápis de olho, com a primeira coisa que tem na frente para poder guardar aquele verso.

CS – E você tem uma preocupação com o estilo?  É algo que vem na hora que você lê, que você pensa?

Eu me preocupo com o ritmo. Eu não uso rima e métrica, nem sempre. Então, eu me preocupo muito com o ritmo. Eu leio o poema em voz alta para ver se ele está cadenciado. Eu acho que isso que é importante para mim.

CS – E por que Vênus em Câncer...o título?

Vênus em Câncer é uma posição que eu tenho no meu mapa astral; e Vênus é um planeta do amor, do desejo, dos prazeres. Câncer é um signo da casa, do lar, da memória, então, essa é uma posição muito passional, é uma posição de muita sensibilidade. E eu acho que a minha poesia vem um pouco desse lado meu, porque eu também sou virginiana, então, eu sou muito mental também, sou muito prática, pragmática. Só que tem esse lugar de onde eu acho que vem isso...e eu achei que era da Vênus em Câncer, por isso tem esse nome.

JC – Os poemas são lindíssimos e você, a cada vez que relê, mais se emociona...

Ai, que lindo! Obrigada!

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Vênus em Câncer é o seu primeiro livro de poesia 

CS - A minha poesia predileta do livro é a da primavera, a que começa com a primavera...eu acho linda...

É para minha irmã...

CS – É para tua irmã, olha só que coisa bonita...eu queria uma coisa difícil, saber qual é a tua poesia predileta desse livro?

Ah, é muito difícil mesmo. Eu acho que é “Facada”. Um poema fofo (risos), que tem esse nome, é uma coisa fofa...(mais risos). Eu acho que é porque para mim foi uma poesia muito significativa. Quando eu fiz, teve um peso grande e eu lembro que foi a primeira poesia que eu tive coragem de mostrar. E comecei a ter respostas de algumas pessoas. Eu lembro que eu postei no Facebook e o Salgado Maranhão (poeta e compositor maranhense) fez um comentário elogiando e aquilo foi muito significativo, porque eu admiro muito ele. Então, foi uma poesia que me validou para mim mesma.

Eu sou muito mental também, sou muito prática, pragmática.

JC - Você já se experimentou como letrista? Porque suas poesias têm um potencial grande. Hoje o poeta que não conseguir (se inserir)na grande escala de consumo, de divulgação, fica com uma arte belíssima, mas de poucos...

Eu tenho um projeto com a minha mãe, que é cantora, a Patrícia Mellodi, que chama “Hereditário”, com as minhas poesias que ela musicou. A gente tem algumas composições juntas, com poesias que estão aqui (no livro) e outras que não estão, que ela foi musicando. A gente está com seis músicas e estava querendo fazer uma EP (Extended play, o mesmo que CD). Tem uma que já está no Spotify (tipo de biblioteca musical com acesso pela internet), que é “Facada”, que a gente fez. E tem outra música com a minha mãe que se chama “Do outro lado Lua”, que é um poema muito antigo, nem está nesse livro, que eu fiz para ela, ela musicou e pôs no CD. Então, tem, mas são com a minha mãe. E é muito legal porque flui muito fácil, a gente tem muita sintonia. Então, encaixa, perfeito. A gente não teve que mudar nada.

JC– E o acesso a esse trabalho?

Tem no Youtube e no Spotify. Está superfácil. Tem uma faixa só do “Hereditário”, porque a gente está fazendo faixa a faixa, aos poucos, mas o “Facada”, o poema que eu falei, está lá.

Continuação da entrevista - Parte 2



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