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CIÊNCIA


Estudos de anticoncepcionais masculinos avançam, mas esbarram em desafios

Efeitos colaterais, tempo até contraceptivo fazer efeito e falta de financiamento são obstáculos.

Publicada em: 18/06/2019



O desenvolvimento de métodos contraceptivos para homens, que começam a surgir na forma de pílula e gel, avançam em universidades e centros de pesquisa pelo mundo. Mas os estudos ainda esbarram em desafios técnicos, econômicos e culturais. Os homens têm, hoje, só duas formas de evitar uma gravidez: realizar uma vasectomia ou usar camisinha (método que protege também contra doenças sexualmente transmissíveis, então médicos não recomendam que seja substituído). Há quem arrisque o coito interrompido, mas a OMS (Organização Mundial da Saúde) considera este como um dos métodos menos efetivos de contracepção.

Já as mulheres têm à disposição um catálogo maior de opções, que inclui a pílula, adesivo, o DIU (dispositivo intrauterino) e o diafragma —que, quase sempre, geram efeitos colaterais indesejados. Atualmente existem pesquisas de contraceptivos masculinos em andamento com métodos hormonais e não hormonais. Há ao menos dez opções em desenvolvimento, em países como Estados Unidos, México e China, segundo levantamento.

Os hormonais têm como objetivo inibir a espermatogênese, ou seja, a produção dos espermatozoides, explica Erick Silva, professor do Departamento de Farmacologia da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e autor de um estudo sobre o assunto. Com menos de 1 milhão de espermatozoides por mililitro de esperma, o homem é considerado infértil, segundo a OMS.

Os contraceptivos da categoria são feitos a partir da combinação de um andrógeno (hormônio que dá origem às características masculinas), como a testosterona, e um progestágeno, derivado sintético da progesterona (hormônio esteroide). Os dois componentes promovem a redução dos hormônios que estimulam a produção de testosterona no testículo, essencial para a formação de espermatozoides.

Os estudos dessas drogas hormonais para homens começaram antes mesmo do lançamento da pílula feminina, lançada em 1960. Há registros de experimentos feitos com detentos em uma penitenciária no estado de Oregon, nos Estados Unidos, na década de 1950.

A injeção de hormônios por via intramuscular foi uma das primeiras alternativas testadas por cientistas, diz Silva. Como era um método muito doloroso, passaram a investir em drogas orais, que ganham cada vez mais forma —algumas já estão em fase de estudos clínicos.

Uma delas é o DMAU (sigla em inglês para undecanoato de dimetandrolona). A primeira fase de testes da droga, cujo propósito era avaliar a sua segurança, foi concluída no ano passado e teve resultados positivos. Foi realizada na Universidade de Washington e na Universidade da Califórnia em Los Angeles e contou com a participação de 100 homens, de 18 a 50 anos.

A nova etapa de testes, que consiste em três meses de uso diário da pílula pelos voluntários, está prevista para ser concluída até o início de 2020, disse à Folha Stephanie Page, professora de medicina da Universidade de Washington. O objetivo, agora, é checar se o composto consegue inibir a produção de espermatozoides.

O DMAU tem uma “pílula irmã”, a 11b-MNTDC, que está um passo atrás nos testes, liderados por Page —os resultados foram apresentados em março deste ano nos Estados Unidos. Os homens não relataram efeitos colaterais graves e houve sinais de redução na produção
de espermatozoides.

Outra alternativa hormonal é o gel NES/T, que combina o progestágeno acetato de segesterona com testosterona. A proposta é que seja aplicado nas costas e nos ombros e absorvido pela pele. O Departamento de Saúde dos Estados Unidos anunciou em novembro do ano passado que dariam início a testes clínicos do gel com cerca de 420 casais.

O ponto negativo dos componentes hormonais, assim como ocorre no caso dos métodos femininos, são os efeitos colaterais. Acne, variação na libido, alterações de humor, dor de cabeça e dificuldades de ereção foram alguns apresentados após os estudos.

O desconhecimento dos efeitos a longo prazo na fertilidade e o período de latência (tempo que demora para começar a fazer efeito) são outros obstáculos que precisam ser superados, explica Marcelo Vieira, coordenador da Sociedade Brasileira de Urologia.

Diante dessas dificuldades, cientistas decidiram apostar em opções sem hormônios. Uma linha age na espermatogênese —é o caso do H2 Gamendazole e do JQ1. O primeiro, em fase pré-clínica, é desenvolvido pelas universidades do Kansas e de Minnesota. Já o efeito do segundo foi descoberto enquanto pesquisadores da Universidade Harvard buscavam uma droga contra o câncer.

A outra linha de métodos não hormonais busca inibir alguma função do espermatozoide já formado, como a motilidade, ou bloquear a saída deles do ducto deferente (como uma espécie de vasectomia sem bisturi), impedindo que fecunde o óvulo da mulher.

A estratégia é atraente, explica Silva, devido ao curto período de latência e por não influenciar na produção das células reprodutoras. O desafio deste método é conseguir bloquear milhões delas.

Exemplos nessa seara são o Eppin (pílula que atua em uma proteína na superfície do espermatozoide), o Vasalgel (hidrogel injetado no ducto deferente, tubo que os espermatozoides atravessam, que impede que as células reprodutoras nadem até o óvulo) e o Risug (desenvolvido pelo médico indiano Sujoy Guha e que atua de forma semelhante ao Vasalgel).

Há ainda um outro método em estudo na Universidade Nacional Autônoma do México focado nos canais de cálcio (CatSper) e potássio (Slo3), necessários para a regulação da mobilidade do espermatozoide.

Hoje, os estudos dos métodos masculinos se concentram em universidades e pequenas indústrias farmacêuticas, diz Silva. As grandes marcas ainda priorizam os femininos. “Pela questão de custo-benefício, talvez a indústria ache que não valha investir milhões em algo com chance de falha grande”, afirma.

O desinteresse pode estar relacionado também a uma falta de uma diretrizes que devem ser seguidas nos testes, estabelecidas por parte das agências reguladoras, e de conhecimento sobre o interesse do público nos anticoncepcionais, afirma Arthi Thirumalai, professora assistente da escola de medicina da Universidade de Washington envolvida nas pesquisas do DMAU.

E também não é fácil atrair voluntários. “Precisamos encontrar pessoas que não querem filho agora, mas que aceitem a possibilidade de ter caso o método falhe”, diz. “A incerteza é a parte mais complicada. Hoje, todos gostam de planejar tudo.”

No fim das contas, o maior desafio é produzir um método contraceptivo com poucos efeitos colaterais e que seja reversível. “Senão o cara faz uma vasectomia, que é melhor”, diz Jorge Hallak, urologista do Hospital das Clínicas, vinculado à USP (Universidade de São Paulo).

Esse último ponto é especialmente delicado. A mulher já nasce com óvulos para a vida inteira, então as pílulas femininas só inibem a ovulação. Dessa forma, quando o uso da droga é interrompido, a mulher volta a ser fértil. O mesmo ocorre com os métodos sem hormônios.

Já os homens produzem espermatozoides todos os dias, o que os tornam mais frágeis do ponto de vista reprodutivo, diz Hallak. Além de drogas, álcool e até poluição podem impactar a fertilidade masculina.
Hallak vê com bons olhos as iniciativas em estudos, principalmente porque poderão ajudar a evitar a gravidez na adolescência —homens jovens seriam um dos principais alvos desses contraceptivos.

“Elas sempre foram consideradas as maiores responsáveis pela sua reprodução e por evitá-la”, afirma a ginecologista Halana Faria, do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, organização criada em 1981. “A ideia de compartilhamento de oportunidade de contracepção, de divisão de responsabilidade, é recente.”

Para Faria, do Coletivo Feminista, os anticoncepcionais masculinos não devem substituir os femininos, mas somar-se a eles. Ao menos em um primeiro momento, já que a mudança de paradigma gera uma certa desconfiança.

“Uma mulher que não está em uma relação estável e se relaciona eventualmente com um cara vai contar com a responsabilidade dele sobre o que acontece no corpo dela?”, questiona. “Se pensar que não é o homem que engravida, talvez valha a pena para a mulher correr alguns riscos associados aos anticoncepcionais femininos.”


Contraceptivos masculinos em estudo

Hormonais
Objetivo: inibir a espermatogênese, ou seja, a produção do espermatozoide
Exemplos: DMAU, 11b-MNTDC, NES/T

Não hormonais
Objetivo 1: inibir a espermatogênese, ou seja, a produção do espermatozoide
Exemplos: H2 Gamendazole e JQ1

Objetivo 2: bloquear alguma função do espermatozoide já formado, como a motilidade
Exemplo: Eppin e os que focam nos canais de cálcio (CatSper) e potássio (Slo3)

Objetivo 3: bloquear a saída dos canais deferentes
Exemplos: Vasalgel e Risug


Problemas dos métodos

Efeitos colaterais, como acne, variação na libido e mudança de humor

Risco de afetar a produção de espermatozoides

Período de latência, ou seja, tempo que demora para começar a fazer efeito

Falta de financiamento por parte de grandes indústrias

Ideia de que contracepção cabe à mulher


Métodos disponíveis hoje

Vasectomia 
Procedimento que bloqueia a passagem dos espermatozoides do testículo para a uretra e o sêmen, por meio do corte dos canais deferentes

Camisinha 
Médicos não orientam que seja substituída, já que protege contra doenças sexualmente transmissíveis


Fonte: FSP
Edição: F.C.



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