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EXERCÍCIOS


Educação física extrapola limites da quadra e deixa de ser mero 'rola bola'

Diversificação de modalidades ajuda a desenvolver cognição e gosto pela prática de esportes.

Publicada em: 19/11/2019



Estudos recentes mostram que a prática de exercícios físicos melhora diferentes aspectos da cognição, caso da memória e do aprendizado. Ao mesmo tempo, a educação física ainda é vista, muitas vezes, como uma disciplina menos importante do currículo escolar. “É fundamental que a criança tenha o máximo de experiências para desenvolver não só a parte motora, mas também a cognitiva”, diz Ricardo Arida, neurofisiologista da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que conduz pesquisas na área.

Segundo Arida, a atividade física contribui para a criação de novos neurônios e aumenta as conexões entre eles, oferecendo melhores condições de aprendizagem. “Existe uma relação entre movimento e cognição, mas é preciso ter ponderação para que a atividade física não seja superestimada”, diz Walter Roberto Correia, professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP (Universidade de São Paulo). “Não adianta ter boas aulas de educação física se o processo de alfabetização for precário. O desenvolvimento na escola passa pela melhora da pedagogia”, afirma ele.

A educação física sofreu diversas transformações. Já teve uma abordagem eugenista e nacionalista, pensada para criar pessoas aptas a defender a pátria. Depois, veio o modelo esportivo, com o objetivo de gerar trabalhadores saudáveis, na interpretação de Correia.

Na virada para o século 21, a disciplina ampliou o horizonte e se ancorou no campo da cultura. Hoje, tem a preocupação de ser mais diversificada, inclusiva, interdisciplinar e com uma relação mais equilibrada entre teoria e prática. “Aqui e acolá, você ainda vai encontrar o ‘rola bola’, que é a aula sem função, para distrair os alunos. Mas as novas gerações de professores têm transformado essa realidade nas últimas duas décadas”, afirma Correia.

Quando o professor Ademir Testa Junior, 35, começou a lecionar na rede estadual, em 2006, deparou-se com alunos que encaravam a educação física como um momento de lazer no meio das disciplinas. Para mudar essa percepção, ele decidiu levar suas aulas para além dos limites da quadra. Em sala, passou a ensinar também fundamentos teóricos, explicando a importância da atividade física para uma vida mais saudável. Com isso, percebeu uma mudança de comportamento nos jovens, que começaram a praticar mais exercício fora da escola.

“Não dá para melhorar a saúde dos alunos com duas aulas por semana. O caminho é fazer com que eles aprendam a realizar essas atividades e levem isso para fora do ambiente escolar e para o resto da vida.”

Há três anos, o professor Testa, como é chamado, trabalha com estudantes desde o sexto ano até a terceira série do ensino médio em uma escola estadual, em Jaú, no interior de São Paulo. Suas aulas também extrapolam os muros do colégio, com caminhadas em volta do lago e visitas ao laboratório de anatomia de uma faculdade perto dali. Além disso, os jovens têm de propor ações de combate ao sedentarismo na cidade.

Outra preocupação do professor é levar a maior variedade possível de modalidades aos alunos —de jogos e lutas até danças e slackline. “Quanto mais diversificadas forem as experiências, maiores serão as chances de escolherem alguma delas na vida cotidiana”, afirma ele. “É função da escola ajudar o aluno a descobrir qual é o seu talento”, concorda Mildred Aparecida Sotero, 50, que é professora em dois colégios particulares de São Paulo, o Santa Cruz e o Nossa Senhora das Graças.

Mildred reforça a importância de não só diversificar os conteúdos mas também dar sentido a eles, fazendo com que os alunos entendam o universo cultural no qual a prática corporal está inserida. Ela faz isso, por exemplo, quando ensina sobre a huka-huka, arte marcial dos povos indígenas do Xingu. Ou quando relaciona a capoeira à escravidão, trabalhando com história e língua portuguesa.

“Demorou um tempo para que a educação física passasse a ser vista como uma disciplina séria, fundamentada e importante. Hoje, estamos num espaço de maior relevância, mas não ainda no lugar em que gostaríamos de estar”.


Fonte: FSP
Edição: F.C.



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