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Jejum pode, a longo prazo, comprometer produção de insulina, diz estudo

A prática de alternar períodos de ingestão de alimentos com abstinência pode, a longo prazo, danificar o pâncreas e comprometer a produção de insulina, mostra estudo da USP.

Publicada em: 21/05/2018



Nenhum outro protocolo de perda de peso tem feito tanto sucesso quanto o jejum intermitente. No ano passado, foi o segundo termo mais buscado no Google brasileiro, na categoria “como fazer”. Tendo como base a utilização das reservas de gordura do organismo para a produção de energia, esse regime propõe alternar períodos de ingestão de alimentos com abstinência, variando o número de horas que se fica sem comer. Além do emagrecimento, estudos mostram que os pacientes apresentam melhora nas taxas de colesterol e em marcadores inflamatórios, entre outros.

Mas, apesar de ser uma prática milenar — principalmente com fins religiosos —, as pesquisas sobre o jejum como ferramenta de perda de peso são relativamente recentes, e os efeitos no organismo em longo prazo largamente desconhecidos. Um estudo brasileiro apresentado ontem no congresso da Sociedade Europeia de Endocrinologia, em Barcelona, alerta que a prática pode elevar o risco de desenvolvimento de diabetes. O trabalho, conduzido por Ana Claudia Munhoz Bonassa e Angelo Rafael Carpinelli, do Departamento de Fisiologia e Biofísica da Universidade de São Paulo (USP), foi feito com modelo animal.

No estudo, os pesquisadores investigaram os efeitos do jejum intermitente em ratos saudáveis e não obesos, alimentados dia sim, dia não. Três meses depois, embora tenham perdido peso e reduzido voluntariamente a ingestão alimentar, os animais apresentaram sinais de danos no pâncreas e no funcionamento da insulina, hormônio secretado por esse órgão, e diretamente associado a diabetes 1 e 2. Quando o organismo não produz ou fabrica uma quantidade insuficiente da substância, a pessoa é diagnosticada com a doença crônica.

Radicais livres
Ana Claudia Munhoz Bonassa conta que começou a desconfiar do efeito negativo do jejum sobre a regulação da insulina quando fazia mestrado e estudou a produção de radicais livres no pâncreas de ratas submetidas ao jejum agudo único (48 horas sem alimento, apenas uma vez). “Os radicais livres são moléculas instáveis que podem se ligar a outras moléculas, prejudicando o funcionamento delas. Observamos um aumento desses radicais livres após o jejum agudo”, relata a pesquisadora. “Nessa época, o jejum intermitente estava sendo amplamente divulgado. Então, nos questionamos se isso ocorreria também após o jejum intermitente de forma crônica. Os outros efeitos negativos encontrados foram, de fato, uma surpresa para nossa equipe”, revela.

No estudo atual, o peso dos animais diminuiu, mas houve aumento de gordura no abdômen. Além disso, quando os pesquisadores fizeram a necrópsia dos ratos, no fim da pesquisa, observaram que as células beta do pâncreas, responsáveis por liberar insulina para o organismo, estavam danificadas, com aumento nos níveis de radicais livres. O exame também detectou marcadores de resistência à insulina, condição que pode levar ao desenvolvimento do diabetes. O motivo de o jejum intermitente provocar essas alterações está sendo investigado agora pela equipe.

A bióloga reconhece que o tema é polêmico, com muitos especialistas e praticantes favoráveis ao jejum. Porém, ela acredita que os efeitos positivos, como normalização das taxas metabólicas, estão relacionados à perda de peso em si, um resultado que pode ser obtido por outros meios, alega. “Sabemos que perder peso quando se está obeso ou com sobrepeso melhora a saúde, principalmente a resposta da insulina e a tolerância à glicose. Foi por esse motivo que escolhemos trabalhar com animais jovens, saudáveis e magros, em vez de testar a dieta em um modelo animal diabético ou obeso. Queríamos avaliar possíveis efeitos só do jejum intermitente”, diz. De acordo com a pesquisadora, até agora, os trabalhos científicos sobre esse protocolo de emagrecimento apresentam dados conflitantes, mas com um consenso: “O de que o jejum intermitente leva à perda de peso porque a dieta fica hipocalórica, ou seja, o indivíduo come menos”, diz.

Energia

Para a Maria Edna de Melo, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), é preciso ter cautela com dietas restritivas. “O consenso da Sbem para perda de peso é mudar para uma alimentação equilibrada, a famosa reeducação alimentar. O que define a perda de peso em uma dieta é a quantidade de calorias ingeridas”, afirma. Contudo, ela admite que, para pessoas com obesidade ou sobrepeso, isso pode ser muito difícil, principalmente porque, no geral, são indivíduos com problemas na regulação do apetite.

A médica explica que esse protocolo pode ser válido para algumas pessoas, mas não para a população como um todo. “Quando se faz jejum, há queima de carboidrato e modulação dos ácidos graxos, com perda de peso e diminuição da fome. Isso pode ajudar, mas algumas pessoas não vão se encaixar e, no caso das com obesidade, não sabemos quanto tempo precisariam fazer jejum para regular a saciedade no sistema nervoso central”, diz. Uma preocupação de Maria Edna de Melo é que, assim como o estudo da USP demonstrou, essa restrição em longo prazo possa alterar negativamente o organismo.

Três perguntas para Gabriella Alves Ferrari, nutricionista e mestre em ciências da saúde pela Universidade de Brasília (UnB)

A sua dissertação de mestrado, realizada na UnB, foi sobre o jejum intermitente. Quais as conclusões do estudo?
Na minha dissertação, investigamos os efeitos da alternate day fasting (um protocolo de jejum intermitente) no peso, no metabolismo e nos biomarcadores de indivíduos com sobrepeso e obesidade. Nossos resultados demonstraram que esse método é uma estratégia eficaz para perda de peso, visto que, comparado ao grupo que realizou protocolos de dieta de restrição calórica, promoveu alteração similar de peso, gordura total, massa muscular, taxa metabólica basal, glicemia, colesterol total, LDL colesterol, HDL colesterol, triglicerídeos, TSH, T3 livre, T4 livre e cortisol.

Ainda que feito com modelo animal, o trabalho da Universidade de São Paulo mostra que o jejum intermitente estimulou a resistência à insulina. Esse resultado preocupa?
Os estudos sobre jejum intermitente, até o momento, têm demonstrado redução da insulina circulante e de marcadores de resistência à insulina, ou seja, prevenção de diabetes. Esse estudo traz um alerta, porém, outros trabalhos são necessários, especialmente em humanos, para validar os resultados. Além disso, o estudo em questão tem curta duração, e acompanhamentos de longo prazo são importantes para reafirmar as conclusões apresentadas. De qualquer forma, é importante considerar todas as publicações e, como qualquer protocolo de perda de peso, o jejum intermitente também não é ideal para todos os indivíduos. Ainda há muito a ser estudado e comprovado sobre o jejum. Apesar da ênfase que ele tem recebido no meio científico, o tema ainda é recente, e grande parte dos estudos foram realizados em modelos animais, o que limita a comparação com organismos humanos.

Quais cuidados tomar?
O jejum intermitente não é somente fazer jejum por 12 ou 16 horas. A alimentação nas demais horas do dia deve ser equilibrada e adequada para cada indivíduo. E digo cada indivíduo, pois é sempre interessante relembrar que cada um tem suas necessidades e precisa de uma alimentação personalizada, que deve ser feita por um profissional capacitado.


Fonte: Correio Braziliense
Edição: F.C.



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