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Valor clínico do exame de Expressão Gênica no Câncer de Mama

Os exames para avaliação de perfil de expressão gênica no câncer de mama demonstram potencial em permitir o uso mais eficiente dos recursos de tratamento na condução deste tipo de câncer.

Publicada em: 12/03/2007



Sabemos hoje que o câncer de mama não é uma doença, mas uma coleção de doenças diferentes recebendo o mesmo nome: pacientes com tumores idênticos ao microscópio podem ter curso clínico completamente diferentes. Como então identificar adequadamente as pacientes que devido ao elevado risco de recidiva após cirurgia curativa necessitam complementar o tratamento local (cirurgia e radioterapia) com terapia sistêmica (hormonioterapia com ou sem quimioterapia), onde os benefícios do tratamento suplantem o risco clínico e os efeitos adversos na qualidade de vida do paciente?

Os modelos para avaliação de risco de recidiva que utilizamos hoje, baseado em variáveis clínico-patológicas (como por exemplo, tamanho do tumor, comprometimento de axila, entre outras) são bastante úteis, mas ainda deixam a desejar, pois dentro de cada categoria de risco aceita atualmente encontramos uma variabilidade substancial na evolução da doença.

Aceita-se de forma generalizada que isto se deva a diferenças ao nível molecular, principalmente no DNA. Faz sentido então que uma análise molecular detalhada do câncer possa fornecer informações que melhorem a nossa capacidade de diferenciar os pacientes com maior risco de recidiva após um tratamento curativo daqueles com risco tão baixo de recidiva que não necessitem de tratamento complementar, ou como os oncologistas chamam, tratamento adjuvante.

Vários perfis de expressão gênica no câncer de mama encontram-se disponíveis na literatura, e com a rápida progressão do campo do diagnóstico molecular é possível que novos testes moleculares e novos perfis venham a surgir. E aí reside um dos problemas no uso clínico destes perfis: Ainda não sabemos quantas classes moleculares de câncer de mama existem e tão pouco dispomos de um teste padrão para avaliação do perfil de expressão gênica nesta patologia. Dos vários perfis mencionados, dois estão começando a serem testados na prática clínica: o OncotypeDX ® (painel de 21 genes relacionados ao câncer de mama) e o MammaPrint® (painel de 70 genes).

Estes exames foram inicialmente testados em uma população bem específica de pacientes com câncer de mama, com tumores até 5cm de diâmetro, axila não comprometida, sensíveis à hormonioterapia (receptor hormonal positivo no tumor) e que receberam Tamoxifeno com ou sem o regime quimioterápico CMF no caso do OncotypeDX ® e tumores até 5cm de diâmetro, axila não comprometida, independentemente da sensibilidade hormonal  e que não receberam nenhum tratamento após a cirurgia curativa, no caso do Mammaprint®.

Os resultados foram promissores, mostrando que o Oncotype®  conseguiu quantificar a probabilidade de recorrência de câncer de mama, além de prever a magnitude do benefício da quimioterapia na população estudada. Já o Mammaprint®, em estudo de validação, mostrou acrescentar informações prognósticas aos critérios clínico-patológicos que utilizamos atualmente em uma população com as características mencionadas acima. Mas ainda não sabemos se seria válida a aplicação destes exames em pacientes com outras características ou submetidas a tratamento no caso do Mammaprint®, ou outras formas de tratamento diferentes das estudas, no caso do OncotypeDX®, nem se há genes específicos que possam prever a resposta a um tipo particular de droga ou regime quimioterápico.

Fica então as perguntas: Até onde estes perfis de expressão gênica são úteis na condução do câncer de mama inicial? Será que acrescenta informação aos critérios clínicos-patológicos utilizados hoje? Podem identificar pacientes em que a quimioterapia adjuvante (após cirurgia curativa) não estaria indicada a despeito de fatores de risco clínico-patológicos desfavoráveis ou indicar quimioterapia para pacientes com fatores de bom prognóstico?

A resposta é que ainda não sabemos. No momento não está claro se a quantificação do nível de expressão gênica, seja de dezenas ou centenas de genes, forneçam mais informações do que uma análise adequada dos fatores clínico-patológicos considerados hoje como padrões e prontamente disponíveis.

Dra. Nilshelena Bezerra

Para realmente estabelecermos a real utilidade clínica destes exames precisamos demonstrar que a (o) paciente que fizer uso do teste terá maiores chances de alcançar um melhor controle do tumor ou um controle similar, mas com menos efeitos adversos em relação a pacientes que não utilizarão o teste. Alguns estudos que já estão em andamento para demonstrar o valor clínico dos perfis de expressão gênica no câncer de mama, mas seus resultados demorarão ainda alguns anos para serem conhecidos.

Podemos concluir que os exames para avaliação de perfil de expressão gênica no câncer de mama demonstram potencial em permitir o uso mais eficiente dos recursos de tratamento na condução deste tipo de câncer, relacionando melhor os riscos de recidiva do tumor com a real necessidade de tratamento sistêmico adjuvante. Mas, no atual momento seu valor clínico está limitado para pacientes com características específicas, e a indicação destes exames deve ser individualizada, respeitando-se as situações clínicas na qual eles foram testados, discutindo-se previamente os objetivos na realização do mesmo, enquanto aguardamos, ansiosamente, os resultados dos estudos anteriormente mencionados que poderão nortear a aplicação prática destes promissores testes diagnósticos.

Dra. Nilshelena Bezerra
Oncologia clínica
13.03.2007



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