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ESCASSEZ


Vai sobrar cachaça, e vai faltar água!

Publicada em: 17/02/2005



Você sabe responder: o que custa mais caro, 1 litro de água mineral ou 1 litro de cachaça ? Dou-lhe uma pista - a produção e o consumo de aguardente de cana cresce a cada ano, principalmente na região nordeste do Brasil . Basta frequentar festas de vaquejada para constatar: a moçada mata a sede com cachaça !

Enquanto isto, no Brasil,a falta de água potável e de saneamento básico (esgotos e tratamentos de dejetos) provocam 70% das internações hospitalares, sendo que 8 em cada 10 pessoas doentes contraíram suas enfermidades através da ingestão de água contaminada: hepatites, cólera, parasitoses intestinais, doenças neurológicas e desidratação de origem infecciosa são algumas das mais comuns.

É impressionante: no Brasil 95% dos esgotos têm seus produtos lançados nos rios e nos mares, sem qualquer tipo de tratamento ! Consequência: contaminação dos alimentos e das fontes de água potável, fazendo com que o país, embora detendo as maiores reservas de água potável do planeta, se encontre sob grande risco.

No Nordeste a situação é bem mais grave, pois aqui vive quase 1/3 da população brasileira, embora só tenhamos 4% da água doce existente no país. Em grandes cidades, como no Recife, que tem cerca de 2 milhões de pessoas residindo na região metropolitana, água só aparece nas torneiras de 10 em 10 dias ! Por consequência vêm ocorrendo casos de cólera numa incidência epidêmica, sendo que em 2003 foram notificados quase 400 casos da enfermidade, com várias mortes. Se considerarmos que uma grande parte dos casos não chega aos registros de notificação compulsória do Ministério da Saúde, pode-se considerar que os números são assustadores.

Um dado irônico: como não existe água de boa qualidade as pessoas, mesmo as mais pobres, são obrigadas a destinar parcela de suas rendas para adquirir água mineral, fazendo com que em algumas capitais nordestinas o consumo de água mineral atinja a marca de 55 litros por ano maior do que aquele observado em países como Estados Unidos e França. Aliás, causa surpresa ver, em residências parisienses, as pessoas beberem, com grande naturalidade, água colhida de suas torneiras da cozinha.

E não nos iludamos, a solução atual, aliás ingênua e individualista, de cavar poços em condomínos e residências familiares é paliativa, pois as reservas subterrâneas nos espaços urbanos são limitadas, além de estarem sendo progressivamente contaminadas. Portanto, as soluções são coletivas e estatais.

O argumento de que as coisas não vão bem porque, aqui, a administração das companhias de abastecimento de água e saneamento é feita por empresas estatais não é válido  em quase todos os países do primeiro mundo a gestão das águas é responsabilidade pública, e as poucas experiências de privatização conduzidas na França e na Inglaterra não foram nada positivas.

No Brasil os cerca de 5 mil municípios detêm o poder de concessão dos serviços de água e esgotos, podendo fazê-lo às concessionárias estaduais, às autarquias municipais ou às empresas privadas. Não foram estimulantes as experiências de privatização ensaiadas aqui no país, tendo-se observado aumento das tarifas e baixa qualidade dos serviços ofertados aos consumidores, resultando em inúmeros questionamentos judiciais.

Todavia, há tempos vem sendo orquestrada uma política de privatização do setor, sendo que o Banco Mundial tem sugerido, em seus relatórios ao governo brasileiro, que transfira para a iniciativa privada a exploração do fornecimento de água e esgotos nos grandes centros urbanos, deixando para o Estado apenas aqueles municípios pequenos, sem chance de lucratividade.

Enquanto isso, nos países desenvolvidos a questão do fornecimento de água é considerada de caráter estratégico, existindo mecanismos que garantem a manutenção desta atividade no domínio da esfera pública.

É certo supor, baseado-se em experiências anteriores, que a assistência e os recursos que faltam hoje às instituições públicas para que se aperfeiçoem, melhorando as taxas de desperdício (somente 50% da água produzida é faturada, enquanto os vazamentos escoam 45% da produção) estarão disponíveis nos cofres do BNDES para os investidores estrangeiros não precisem sequer trazer seus dólares para cá.

Mas não custa lembrar, uma nação não pode existir se não luta pela sua soberania, e soberania traduz controle e monopólio natural sobre a exploração e o abastecimento de suas fontes de água.

E as atitudes precisam de urgência, afinal 1 litro de água mineral já custa mais que 1 litro de cachaça!

 José Cerqueira Dantas



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