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Vai ficar mais quente

Publicada em: 17/10/2005



Hoje é sábado, dia 15 de outubro de 2005. São 19 horas e Teresina ferve como nunca: na sala de minha casa um vento quente e seco entra pelas janelas, irritando a mucosa do nariz enquanto respiro, fazendo-me suar em repouso. Após o 3º banho do dia volto a olhar o termômetro, que  marca 35º C., com a umidade relativa do ar  em 29%. Vou ao site inmet.gov  para confirmar, e está lá: Teresina, max.: 38º C. Passeio pelas outras capitais, e me consolo: Goiânia, Palmas, Belém, Belo Horizonte, Campo Grande, Cuiabá, Brasília, Manaus tiveram, hoje, temperaturas em torno dos  35 graus.

Olho pela janela do apartamento em que moro e procuro as copas das incontáveis árvores que deram a Teresina, no passado, o nome de “cidade verde”, e não as vejo mais. Só vejo, agora, ruas asfaltadas, casas e casebres, e muitos terrenos baldios, com sua terra nua, feia e suja coberta por lixo urbano, em suas mais diversas formas. Com o binóculo conto oito focos de queimadas na periferia da cidade, num ângulo de 45 graus.

Minha Teresina é somente um micro-cosmo do filme de terror e suspense em que se transformou a vida neste planeta, pois dois grandes fantasmas ameaçam a Terra e, por consequência, a sobrevivência do homem: a diminuição crescente de água potável e o aquecimento global.

As primeiras medidas da metereologia, feitas em 1866, atribuiram à  Terra uma temperatura média de 13,5 graus, e hoje ela já está em 14,5 graus centígrados. Um salto desta grandeza, em tão curto espaço de tempo é, segundo os pesquisadores, muito inquietante. Isso explica porque os dez anos mais quentes do século ocorreram nos  últimos 15 anos.

O aquecimento global disparou depois da revolução industrial e do enorme crescimento populacional do planeta, justamente quando começaram as emissões de gás carbônico na atmosfera. Isto explica porque os fenômenos metereológicos estão cada vez mais violentos. Enchentes recordes, secas sem precedentes e terriveis desertificações demonstram que à medida que a temperatura aumenta o clima fica mais sujeito a oscilações bruscas de grande intensidade.

Cientistas confiáveis têm afirmado que dentro de 30 anos as calotas polares praticamente não existirão mais e o gelo, depois de derreter e escorrer para os oceanos, elevará o nivel do mar, inundando grandes cidades litorâneas, como Nova Iorque, Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza. O calor ficará sufocante, com termômetros marcando 48 – 50 graus, até mesmo nas cidades que hoje têm clima agradavel. Cidades como Brasília e Teresina se tornarão inabitáveis, pois a temperatura ambiental atingirá niveis muito altos e não serão vistas nuvens nos céus, pois a umidade do ar ficará abaixo de 20%. Mais da metade da Terra estará transformada em desertos, com a erosão, os incêndios e o  desmatamento arruinando o que ainda restar de solos férteis. A grande maioria das florestas tropicais será transformada em areais secos e estéreis, e os únicos sobreviventes do reino animal adaptados ao novo cenário ambiental serão representados por ratos, baratas e mosquitos. E, talvez, o homem. A fome será planetária, porque o encolhimento das áreas férteis fará cair a produção, e o calor generalizado terá inviabilizado as plantações. Não haverá, em 2050, água para os 12 bilhões de seres humanos que habitarão a Terra. Não existirão mais rios ou lagos, e os grandes lençóis subterrâneos, onde se armazenam 80% da água potável do planeta, estarão quase vazios. A razão: uma extração muito rápida da água subterrânea impedirá que ela se renove, por meio da chuva e da infiltração, na mesma velocidade (os “saques” superarão os “depósitos”, e a conta corrente hídrica do planeta entrará em deficit).

A Índia, a China e os Estados Unidos já são, hoje, países que retiram do subsolo mais água do que aquilo que a natureza consegue repor. Juntos estes países acumulam deficit anual de 140 trilhões de litros de água: eles “pedem emprestado” ao planeta uma água que não conseguem “pagar”. Vejamos a Índia: em 1950 esse país tinha 600 milhões de habitantes e 5 milhões de poços. Hoje a população dobrou (1 bilhão de habitantes) e o número de poços triplicou (17 milhões de poços). Não dá mesmo para esperar que a natureza tenha tempo de renovar suas reservas...

A mesma realidade se aplica com relação ao gás carbônico, jogado na atmosfera em proporção crescente, em decorrência do crescimento da economia e da produção industrial. Aqui a consequência imediata é o aquecimento global, pois a camada de gás carbônico que envolve a Terra acumula calor com grande eficiência, impedindo que o mesmo se dissipe na atmosfera. Esta mesma camada de gases e partículas suspensas na atmosfera reflete os raios solares, impedindo que atinjam os mares, reduzindo assim a evaporação de suas águas. Sem evaporação não há nuvens, sem nuvens não ocorrem chuvas.  Com isso, a temperatura no planeta sobe continuamente. Nestes últimos cem anos, quando começaram as emissões de gás carbônico na atmosfera, já subiram para o ar, por culpa do homem, 60 bilhões de toneladas deste terrivel poluente térmico, e a temperatura do planeta elevou-se cerca de 1 grau centígrado.

Resultado: as capas de gelo armazenadas sobre os polos já estão, hoje, 40 % mais finas do que há 30 anos, segundo o Worldwatch Institute. Ao mesmo tempo medidas recentes comprovam que, de 100 anos para cá, o nível de todos os oceanos subiu 15 centímetros, o que corresponde a um volume descomunal de água resultante do degelo polar, se considerarmos a quantidade total de água existente nos mares e oceanos .

Assim como o petróleo, a água se tornará um recurso muito escasso, e as guerras entre nações pelo domínio de suas fontes se tornarão muito violentas. Não há dúvidas de que em algum momento do futuro a Amazônia terá sua administração transferida para um organismo internacional, se não for simplesmente ocupada por alguma potência militar, alegando a necessidade de “defender a humanidade”.  Porque ? Ora, de cada 100 litros de água existentes no planeta, 97 litros não são potáveis,  e outros 2 litros estão sob a forma de gelo. Resumindo: menos de 1 litro em 1.000 litros de água da Terra está disponivel para ser bebido, e na Amazônia encontra-se a maior reserva planetária de água potável de superfície, o que a torna uma mina de ouro branco.

O cenário é sombrio, pois nenhuma nação parece interessada em modificar suas práticas políticas ou industriais, assumindo a responsabilidade de administrar corretamente seus recursos naturais.

E como será a vida humana, num mundo sem água potável, sem umidade ambiental, sem rios, lagos, nuvens ou árvores ? Consigo vê-la, claramente: populações de “homens alfa” habitarão as “cidades-bolhas”, gigantescas estruturas muito confortáveis completamente cobertas por cúpulas chão-ao-chão, feitas de vidro e plástico, isoladas do meio externo, com a temperatura interna, a umidade, o teor de gases, a qualidade do ar e todas as variaveis ambientais controladas artificialmente. Estas cidades, que não terão estradas, cemitérios ou eleições, serão construídas e administradas por mega-consórcios formados por grandes grupos financeiros e entidades não-governamentais, e estando posicionadas a uma distância média de 600 quilômetros umas das outras, interligando-se por túneis nos quais circularão trens “maglev” , os quais não tocarão o chão, consumirão pouquíssima energia e atingirão velocidade de 800 km./hora (semelhante à de um Boeing 747). Estações espaciais geoestacionárias captadores de energia solar, orbitando a 30 mil quilômetros da Terra, ficarão ligadas a estas cidades através de cabos supercondutivos sobre os quais circularão veículos .

 Outras “comunidades-alfa”, mais privilegiadas, habitarão os mares em enormes “navios-cidades” movidos e iluminados por mini-usinas industriais de fusão, utilizando a água do mar como combustivel. Consumindo água do mar dessalinizanda  e alimentando-se de saborosos frutos do mar cultivados em cativeiro,  com tomates, mamões e outras frutas geneticamente manipuladas para crescerem em ambiente de alta salinidade (eliminando o sal através das suas folhas) os nativos dessas nações marítimas disporão de shoppings, quadras de tênis, hospitais, escolas, florestas artificiais, restaurantes, praças, parques e piscinas com ondas, onde não usarão dinheiro ou cartões de créditos: ao tocarem seus polegares em sensores de identificação terão acesso a todos as suas necessidades e conveniências. Ao mirar alguém, através dos delgados óculos equipados com nano-câmeras, todos os habitantes identificarão, instantâneamente, pela análise da iris ocular, o desconhecido, com seu nome, endereço, ocupação e grau de risco da aproximação, tais dados sendo listados nas lentes dos óculos, como se fossem telas de computadores. Este contato será imediatamente arquivado num gigantesco banco de dados da administração central, que o arquivará no seu currículo, pelos próximos 1000 anos.  Robôs superdotados farão tudo aquilo que hoje é atributo dos escravos urbanos, os trabalhadores manuais.

Da mesma maneira que nossas crianças aprendem no colégio que seus ancestrais saltavam em galhos de árvores na África Central antes de aprenderam a marcha bípede, e que seus avós andavam sobre o dorso de cavalos;  os garotos deste futuro próximo descobrirão, assustados, que seus bisavós eram obrigados a ir de um lugar para outro, nadar, jogar futebol e encontrar os amigos a “céu-aberto”, em contato direto com a ameaçadora natureza, correndo o perigo das radiações solares, dos ventos muito úmidos ou muito secos, e da poluição ambiental, movimentando-se dentro de caixas metálicas individuais altamente inseguras,  queimando um combustível caro e mal cheiroso, arrancado das profundezas da Terra. Ouvirão que nesses tempos ocorriam até mesmo assaltos, acidentes e agressões entre as pessoas.

Ah sim, não poderá deixar de ser dito às “crianças alfa” que todas estas desgraças ainda existem, mas somente no mundo lá de fora, habitado pelos “homens kadabba”, um mundo sempre escuro (no qual jamais se vê a luz do sol), mal cheiroso (pela queda constante de chuva ácida) e violento (com bandos autônomos vagueando em busca de presas), o lugar dos “sem ar”, dos “sem água”, onde as crianças morrem de sede, e fome. Mas também lhes será dito que no próximo natal irão, em excursões promovidas por entidades filantrópicas, distribuir saquinhos de água pura e bolsinhas de oxigênio para aquelas crianças cujos pais não puderam resgatá-las do inferno, para morar no paraiso. 

jcerqueira@uol.com.br


Previsão do tempo no Brasil, em 15/10/2005



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