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Por que estamos obesos

A rapidez com que as coisas mudaram para a humanidade, nos últimos anos, foi gigantesca. Mas nossos processos adaptativos foram lentos.

Publicada em: 22/09/2010



"Os problemas não são resolvidos pelo fornecimento de novas informações, mas pela ordenação do que sabemos há muito tempo".
Ludwig Wittgenstein (in "Philosophical Investigations").

"Uma coisa se segue a outra": este é um conceito que a maioria dos animais mamíferos consegue dominar. Aliás, muito do processo de aprendizado no reino animal se baseia neste princípio. Quem não lembra das experiências de Pavlov com seus cães?: Oferecer alimentos e ao mesmo tempo tocar a campainha. Após algum tempo de repetição da rotina o tocar da campainha determina o início da salivação, mesmo sem a visão dos alimentos pois, por um condicionamento mental, campainha passa a significar alimentos.

Assim funciona o cérebro, através de associações que favoreçam as recompensas imediatas. As consequências tardias das buscas destas recompensas imediatas são um outro assunto:

Têmis acaba de abrir os olhos no segundo andar da Med Imagem, numa sala pequena. Em volta da mesa de exames sobre a qual ela se encontra, estão agrupados vários aparelhos médicos. Uma enfermeira segura seu braço, no qual está instalado um tubo de soro. Aquela cena lhe é familiar. Mais uma vez, numa tarde de sábado, Têmis acaba de ser submetida a uma endoscopia. Sua décima segunda endoscopia. Os médicos retiraram fragmentos de carne do interior de seu esôfago.

Enquanto espera a alta para retornar à sua casa, Têmis Ramos, uma mulher de 35 anos, culta, profissional competente, fecha os olhos e fica a lembrar-se do dia em que, há 4 anos, submeteu-se a uma cirurgia de redução do estômago, para tratamento de obesidade. Muitas coisas boas aconteceram na sua vida. E algumas coisas ruins.

Desde a adolescência o sucesso escolar já lhe anunciava um futuro profissional  promissor, e cedo decidira estudar Direito e ser uma juíza federal. Viajando mais no tempo, ela relembra sua beleza na adolescência, que inspirava os olhares e os bilhetinhos dos garotos. Mas que também despertava os impulsos de vingança das garotas.

Têmis nunca bebeu, fumou, criou problemas para os pais, ou se envolveu em conflitos com amigos, amigas, parentes ou professores. Ela lembrava de que ainda na sua infância os pais já diziam: -"Esta menina é mais racional e organizada que um adulto !"

Mas, em algum momento, por volta dos 9 anos de idade, ela começou a gostar de comer. Os dias antes das provas, a ida aos aniversários das colegas, os encontros com o primeiro namorado, a separação dos pais - tudo relacionado a ansiedade e indefinição se dissipava através da comida.

O vestibular, as provas na faculdade, a formatura, os concursos, o casamento e o nascimento do filho foram experiências que obedeceram a roteiros muito bem elaborados por ela. E tudo ocorreu conforme planejou.

Mas sua compulsão por comida tornou-se algo incontrolável. À inicial negação do problema seguiu-se a guerra contra a balança, o sentimento de frustração pela beleza perdida, os preconceitos, as discussões com o marido, as idas e vindas aos consultórios de endocrinologistas, nutricionistas, psicólogos, os inúmeros exames de laboratório, a descoberta da diabetes, os livros de auto-ajuda, as desilusões com dietas miraculosas, as caminhadas e as academias iniciadas e logo abandonadas ...

Abrindo os olhos e mirando os desenhos de peixes no teto da sala de recuperação, ela voltou à manhã daquele sábado, quando mais uma vez ligou para duas amigas, e combinaram almoçar juntas. Daí em diante tudo aconteceu como já tem acontecido várias vezes neste últimos anos: o encontro, os chopes, as conversas animadas, a adorada picanha fatiada acompanhada de batatas fritas, e ... o engasgo. Seguido por falta de ar, dores no peito e náuseas. Disfarçando, a muito custo, o sofrimento lá se foram, mais uma vez, em busca de socorro médico.

-"Que vergonha", pensava Têmis, "esta é a décima segunda vez que passo por isto, e não consigo me controlar. Aqui neste hospital já devo ser vista como uma louca. E talvez eu não passe mesmo disto: uma maluca". Fechando os olhos chorou baixinho, mergulhando mais ainda na escuridão. Nos braços de sua mais nova companhia: a depressão.

A rapidez com que as coisas mudaram para a humanidade, nos últimos anos, foi gigantesca. Nosso cérebro, nossa inteligência, se desenvolveu, nos últimos milhares de anos, através de um modelo incremental. Mas nossos processos adaptativos foram lentos, e quando ocorreram mudanças abruptas e radicais no ambiente, a espécie humana por pouco não desapareceu.

A última era do gelo, há cerca de 12 mil anos (quando a Terra virou um grande "freezer") reduziu os humanos a uma população que caberia num destes navios transatlânticos que transportam turistas. Somos todos descendentes destes 400 a 500 heróis da adaptação.

Daqueles tempos, até há cerca de 100 anos atrás, o cenário alimentar ao qual todos os seres humanos estavam expostos era o da mais completa escassez de alimentos. A maior parte do tempo dos humanos era gasta na busca de comida. Os negócios, as viagens, as alianças, as guerras, as invasões, os conflitos entre vizinhos e familiares, os casamentos, as mortes, as epidemias: tudo repousava sobre a busca de alimentos. O medo da fome movia o mundo. A terra produzia pouco, pois não sabíamos adubar o solo. Os poucos alimentos cultivados e colhidos não podiam ser armazenados, conservados; pois ainda não sabíamos como fazê-lo.

E neste milhares de anos de evolução da máquina de sobrevivência que é o corpo humano, só foram capazes de sobreviver aqueles que desenvolveram a capacidade de retirar o máximo de energia do mínimo de alimentos. Os produtos da caça precisavam ser imediatamente consumidos, pois não havia geladeiras onde eles pudessem ser guardados, para serem servidos numa segunda refeição. As frutas, os cereais e os legumes eram destruídos pelas pragas, e a fome era a companheira mais frequente do ser humano.

Precisávamos, todo dia e o dia todo, andar, correr, nadar e saltar, buscando o que comer, ao mesmo tempo em que fugíamos daqueles que nos miravam como seus almoços. As grandes vitórias de um homem, e de uma mulher, não se relacionavam às conquistas futuras. A grande vitória de um ser humano era estar vivo e lutando no dia seguinte.

Em tal cenário, aquele que acumulasse 100 gramas de gordura corporal estava desfrutando de um luxo competitivo semelhante ao do indivíduo que, atualmente, consegue economizar dois milhões de reais em sua aplicação de poupança! E assim vagamos, durante os últimos 10 mil anos, famintos e sedentos sobre a Terra, em busca do que comer.

Naqueles tempos comemos raízes arrancadas do chão com nossas próprias mãos. Rãs, ratos, serpentes, e até nossos semelhantes, nos serviram de alimentos nesta longa caminhada, até chegarmos a este tempo de abundância, de enorme exuberância alimentar no qual estamos vivendo agora. Come-se o que se quiser, a um custo quase irrisório.

Há cem anos uma família gastava 70 % de sua renda com alimentos. Hoje ela gasta algo em torno de 6 % . E assim nos danamos a comer. Desde cedo as mães forçam os filhos a ingerir alimentos, mesmo que eles não tenham fome. Pois acreditam que quanto mais comerem, mais crescerão, mais formosos se tornarão, e mais sucessos irão alcançar. Muitas e muitas mães chegam a alimentar seus filhos enquanto eles dormem !

Nossa estrutura mental se desenvolveu, durante toda a evolução do homem, para buscar a sobrevivência individual (através da comida) e a sobrevivência da espécie (através do sexo).

Os avanços científicos conseguiram driblar as consequências populacionais dos nossos instintos sexuais. A pílula, o DIU e a tabela conseguiram evitar que a população mundial explodisse, sem que as pessoas abandonassem seus instintos de reprodução, podendo desfrutar do cenário de liberdade sexual que as sociedades modernas permitem.

Mas, tragicamente, não conseguimos desenvolver qualquer método científico que permita às pessoas obedecerem aos impulsos ancestrais que as levam a buscar comida sempre que têm fome. Sem precisar pagar um alto preço existencial por isto. Não temos, ainda, qualquer solução para o grave problema da epidemia que está nos transformando, a todos, num exército de obesos. Do ponto de vista científico, a mutilação física através da retirada do estômago das pessoas, com a intenção de reduzir a incidência da obesidade, é uma prática tão absurda quanto seria a de se amputar o pênis dos maridos como política de controle da natalidade.

E enquanto não se descobre um método científico que modifique a herança genética que no passado nos salvou da morte pela escassez de alimentos, e que agora nos empurra para o suicídio por excessos alimentares, precisamos lutar coletivamente para que as escolas, os pais, o Estado, os meios de comunicação, as instituições religiosas, as empresas, os partidos políticos e tudo o mais que for possível mobilizar, se unam na luta para que, desde cedo, os alimentos industrializados, as empresas de ?fast-food?, as balas, sorvetes e tudo que contém açucares, sejam vistos pelas crianças como algo tão perigoso quanto o cigarro.

Com certeza é urgente que abramos os olhos, pois algo de muito grave está acontecendo num mundo no qual o maior vendedor de alimentos perigosos (McDonald`s) é também o maior distribuidor de brinquedos para crianças !

 

José Cerqueira Dantas.
jcerqueira@medplan.com.br
Edição: F.C.
22.09.2010



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