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Os deuses tem sede

Hoje as divindades às quais são ofertados sacrifícios correspondem às grandes corporações empresariais; seus estrategistas, oráculos e executivos financeiros assumem o papel de sacerdotes...

Publicada em: 30/05/2005



Quando os europeus chegaram à América, em 1492, Cristóvão Colombo  logo encontrou  habitantes locais, que faziam parte da primeira população americana, contando com cerca de 20 milhões de pessoas. Cem anos depois aquela população estava reduzida a um terço – este gigantesco sacrifício humano foi a principal obra da oferta da civilização e da cristandade aos povos “indígenas”. Ou “gentio das Índias”: afinal achava-se estar alcançando as Índias (e suas valiosas mercadorias) através de uma rota mais curta e sem a presença incômoda  da entusiasmada  belicosidade de guerreiros turcos e fanáticos muçulmanos, que atrapalhavam o fluxo das mercadorias  vindas do Oriente através de rotas terrestres.

Compreende-se, pois, o afinco com que mercadores, reis e cardeais empenharam-se na conversão daqueles nativos heréticos à unidade redentora do cristianismo.

Mas esta relação harmoniosa entre divindades e mercadores vem de muito longe na história da evolução das sociedades humanas – muitos antropólogos, etnólogos e historiadores têm descrito os caminhos percorridos pelos motores materiais que movem a cadeia da história dos sacrifícios humanos, desde a Idade da Magia até a Guerra do Iraque. Assim foi, assim é, assim será, sempre.  Ao longo do tempo mudaram somente o sentido e a natureza dos sacrifícios, mas, na essência do contrato social permaneceram as divindades e seus sacerdotes, a nobreza, os vassalos e as hordas de escravos. Hoje as divindades às quais são ofertados sacrifícios correspondem às grandes corporações empresariais; seus estrategistas, oráculos e executivos financeiros assumem o papel de sacerdotes, e a nobreza com sua vassalagem dilui-se na máquina político-burocrática estatal . Os demais membros do tecido social constituem a base da pirâmide, cumprindo, no pacto das sociedades democráticas modernas, a função de consumidores-eleitores, com hábitos, valores e opções sendo modelados pela indústria cultural, diluente da propaganda e do marketing de massa.

Estarei paranóico ? Vejamos então, escolhamos o tema: eleições, religião, pesquisa científica, informática (O Caso Microsoft, livro recente de Wendy Goldman Rohm, Ed. Geração Editorial é soberbo, é demais!), hábitos de consumo, terrorismo internacional ? E qual a nação: França, Itália, Estados Unidos ? Tomemos a nação que é hoje a mais rica, culta e que oferece as informações mais confiáveis.

Assim, imagine que os serviços americanos de informação descobrissem que organizações terroristas estão, de maneira organizada e sistemática, dizimando lentamente sua população há mais de 70 anos, causando a morte premeditada de aproximadamente 400.000 americanos/ano, através de uma substância tóxica consumida por meio de indução subliminar ! Imagine ainda que esta substância tóxica esteja determinando mais mortes que  AIDS, álcool, heroína, incêndios, acidentes de automóveis, homicídio e suicídio juntos! Considere que, levando ao aparecimento de vários tipos de câncer, infarto do miocárdio, derrame cerebral, hipertensão, asma e diabetes a perigosa droga patrocinada pelas corporações terroristas causa gastos  de mais de 100 bilhões de dólares/ano ao governo; governo este que está infiltrado por membros da organização, a qual também influencia instituições de pesquisa científica, órgãos da imprensa, membros do judiciário, políticos, atores de cinema, e tudo o mais que possa consolidar e expandir seus poderes.

Pois saiba, esta organização criminosa, centenas de vezes mais danosa e refinada que a máfia, existe de maneira organizada desde 1920, sendo constituída por 6 grandes "famílias" !

E pensar que todo começou com os delírios esquizóides de Colombo, dando ouvidos a um anjo que vinha soprar-lhe aos ouvidos uma história de riquezas a serem conquistadas se navegasse contra o bom senso ! Riquezas ele não encontrou, mas trouxe daquelas terras o estranho hábito do banho, e umas folhas que os nativos chamavam de tabac e apreciavam enrolar como pergaminhos, ateando-lhes fogo numa extremidade enquanto aspiravam na outra. Num prenúncio de futuras complicações, os primeiros navegantes que retornaram à Espanha com o exótico hábito de exalar fumaça pelas narinas foram queimados vivos por aplicados cardeais da Santíssima Inquisição, os quais, com muita propriedade, os tomaram por “endemoniados”! Talvez por isso o potencial mercadológico de tal produto tenha permanecido inexplorado por quase 400 anos, só aparecendo, de maneira explosiva, nos Estados Unidos, principalmente a partir de 1920, quando a American Tobacco Company iniciou campanhas publicitárias maciças vinculando os direitos de emancipação feminina às imagens de mulheres fumando: nunca na história da humanidade fora realizado um esforço tão intensivo e organizado de marketing e de relações públicas para seduzir milhões de pessoas a se tornarem viciadas em nicotina, levando-as à morte precoce causada por várias doenças ligadas ao hábito de fumar.  Vendo e ouvindo com grande freqüência, em enorme intensidade e por longo período, mensagens que passavam a idéia e valores vinculando cigarros com juventude, apelo sexual, vitalidade e liberdade, os americanos tornaram-se, no período de 50 anos, escravos de divindades demoníacas que têm muita sede de poder e lucros, mesmo que isso implique, numa única nação, no sacrifício de quase meio milhão de pessoas/ano.

Como se chegou a tal ponto? O que fazer para evitar que, só na América, a cada dia 3000 novas crianças tornem-se viciadas em nicotina? E aqui no Brasil, onde estatísticas confiáveis nunca são disponíveis, qual é o cenário ?

Na parte II deste texto vamos conversar acerca de como ramificações políticas fizeram com que na ração diária dos soldados americanos que lutaram na 2ª guerra mundial não faltassem pacotes de cigarros; e porque os planejadores das políticas previdenciárias pelo mundo afora consideram que sem a providencial contribuição regulatória do tabagismo o desequilíbrio orçamentário das previdências sociais seria inevitável ...

PARTE II :

Na portaria do Hotel Plaza, em Nova Iorque, naquela manhã de 15 de dezembro de 1953, nada chamava a atenção para um grupo de homens discretos e bem vestidos, que iam chegando e subindo diretamente para a mesma sala de reuniões onde participariam, durante todo o dia, de um encontro no mínimo insólito. Afinal, aqueles senhores eram os principais executivos de empresas concorrentes, disputando ferozmente o mesmo mercado, não havendo razão lógica para que esquecessem seus conflitos comerciais e se unissem na busca de um objetivo comum. Pois é, mas lá estavam, sem que nem mesmo suas esposas soubessem, os presidentes da Philip Morris, da Benson and Hedges, da American Tobacco e da US Tobacco, com a finalidade de astuciar, conspirar, ocultar e fraudar seus consumidores. Até então a maldita nocitina vinha matando pessoas, através do consumo crescente dos “inocentes” cigarros que as empresas daqueles senhores fabricavam e vendiam, mas agora uma ameaça começava a rondar seus negócios: a imprensa estava divulgando pesquisas médicas sugerindo a existência de  relação entre cigarro e câncer. 

A partir daquela reunião uma estratégia única de ação foi adotada por aquelas empresas, e ela consistia em:

1. “financiar” pesquisadores médicos e cientistas para que divulgassem trabalhos mostrando que o consumo de cigarros não faz mal à saúde;

2. dirigir a propaganda de consumo de cigarros para a população jovem;

3. usar de todos os meios para confundir as pessoas quanto à relação entre cigarro e câncer, e

4. realizar pesquisas conjuntas para aumentar a concentração de nicotina nos cigarros, aumentando assim o grau de dependência e de impulso de consumo nos fumantes, diminuindo as chances de que consigam abandonar o vício. Afinal, depois que começa a fumar cigarros uma pessoa tem somente 5 % de chances de vir a abandonar o vício, por mais força de vontade e empenho que dedique ao projeto.

Depois daquela reunião 448 jornais americanos começaram a publicar anúncios e matérias desmentindo os males causados pelos cigarros, e gerando confusões acerca das pesquisas científicas.

O mais surpreendente é que aqueles homens já sabiam, então, que o produto que vendiam causa câncer ! Assim, pode-se concluir que as empresas de cigarros vêm praticando há 50 anos – e continuam a praticar e executar – um esquema maciço, mundial, de fraude. Até hoje não há explicação convincente para justificar o fato de que os soldados americanos que lutaram na 2ª guerra mundial recebessem sempre, todos eles, fumassem ou não, cigarros como parte de sua ração diária, durante todo o tempo que durou a campanha militar.

Todavia, a questão é muito mais complexa, sendo difícil encontrar mocinhos  nesta história, pois em todo o mundo as relações entre os interesses de governos e empresas fabricantes de cigarros são muitos próximas. No Brasil, por exemplo, para cada 2 reais obtidos pelos fabricantes com a venda de cigarros, 1 real vai os cofres estatais, sob a forma de impostos: imagine pois a falta que fariam estes bilhões de reais ao guloso apetite do governo. Além disso, a redução da expectativa de vida dos fumantes atua como importante fator de equilíbrio orçamentário da previdência social, em todos os países do mundo. Se todos os fumantes abandonassem imediatamente o consumo da nicotina, os fundos previdenciários estatais de praticamente todos os países “quebrariam”, pois teriam que pagar pensões de aposentados que morreriam mais tarde, consumindo assim mais recursos financeiros.

E por que, então, estas súbitas campanhas anti-tabagismo que vários governos estão, só agora, promovendo com tamanho entusiasmo ? Como sempre, pressionados por imperativos financeiros: o complexo médico-industrial americano está tornando os custos dos tratamentos das doenças induzidas pelo cigarro mais elevado que os ganhos obtidos na redução das despesas  previdenciários, pelo desaparecimento prematuro dos contribuintes fumantes. E o que é pior, a “epidemia” fugiu do controle: atualmente 1/3 da população adulta do mundo (1,2 bilhão de pessoas) é viciada em cigarros, causando 10 mil mortes por dia / 5 milhões de mortes por ano; sem contar que trabalhadores fumantes são menos produtivos e faltam mais ao trabalho que os não fumantes. Não é de estranhar que muitas empresas evitem contratar fumantes, e planos de saúde prefiram não tê-los como clientes.

E as expectativas são sombrias, pois tudo leva a crer que as companhias de cigarros continuarão a traficar livremente suas substâncias químicas destrutivas, embora a solução óbvia seja a intolerância total, e não esta aliança dissimulada entre Estados e traficantes, à espera de que as pessoas decidam, baseadas no livre arbítrio, se irão ou não se tornar viciadas em cigarros. Sem dúvidas a melhor política será a adoção de práticas educacionais baseadas na escola e no ambiente familiar, centradas na criança e no adolescente, antes que a idade crítica de 13 anos seja atingida. Se, ao chegar à adolescência, os garotos e garotas não estiverem culturalmente “imunizados” contra o cigarro, se tornarão vítimas irrecuperáveis da máquina de viciar da indústria de cigarros.

jcerqueira@uol.com.br



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