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O Menino, a Praça e a Cardinalle

Acompanhe o conto de Pocion Rodrigues, sobre um garoto e sua fantástica jornada ao cinema

Publicada em: 24/07/2007



Um domingo. Por volta das duas horas da tarde o menino magro descia a Rua Elizeu Martins, sobrecarregado pela pilha de revistas em quadrinhos, no passo rápido de quem precisa chegar logo ao destino. Os domingos de então eram mais preguiçosos, pois em suas tardes não proliferavam grupos de pagode e bandas de forró. As pessoas que haviam lotado os clubes na manhã de sol, àquela hora já se refugiavam em suas casas para depois do almoço se entregarem à sagrada soneca na tarde morna de Teresina.

Cruzando com poucas pessoas o menino magro já atravessava a Praça da Liberdade tendo olhado furtiva e contritamente em direção à igreja de São Benedito enquanto se benzia balbuciando num sussurro: “emnomedopaidofilhoedoespíritosantoamém”. Mais á frente o sentinela do Palácio de Karnak bocejava sonolento, milagrosamente escorado num velho fuzil, ambos virgens de guerra e de escaramuças com bandidos.

Alcançando a calçada dos correios o menino magro encontrava a primeira banca de revistas, além de grupos de vendedores de pastéis, empadas, cocadas, refrescos e outros saudáveis difusores das parasitoses intestinais.

Estava quase chegando. Hollywood era logo ali. Praça Pedro II, a verdadeira Meca do cinema; a fábrica das emoções que lotavam seu espírito ainda puro. Com jeito de mercado persa calçada longa e comum ao Cine Rex, “Bomboniere”, Theatro 4 de Setembro abrigava muitas pessoas e uma seqüência de bancas de revistas, onde o menino magro se deleitava comprando com o dinheiro da mesada “Tarzan”, “Fantasma”, Pato Donald”, “Búfalo Bill” etc. Seguia-se o ritual das trocas de revistas antigas com os outros meninos, motivo da volumosa bagagem que ele carregava. De vez em quando consultava seu novíssimo relógio Mido de dezessete rubis: duas horas mais quarenta e cinco minutos.

Agora lá estava nosso herói, um dos primeiros da fila, esperando as portas do cine-theatro engolirem a pequena multidão indócil que disputaria lugares perto de um dos gigantescos ventiladores na sala de projeção. Correndo como um apache o menino magro já ocupara dois lugares na terceira fila. Um para si próprio e o outro para acomodar sua pilha de revistas. A real intenção concretizada em poucos minutos era vender as duas poltronas para qualquer casal de namorados retardatário, garantindo a grana do lanche do Carnaúba após o cinema.

Há pouco passara pelo drama cruel de escolher entre o Cine Rex, onde Tony Curtis, na pele do “Cavaleiro Negro”, arrasava no tempo das cruzadas ou o Theatro, onde Burt Lancaster eletrizava a tela encarnando um destemido pirata. Sua decisão foi induzida pela ardente paixão secreta que nutria pela belíssima Cláudia Cardinalle, companheira de aventura do sortudo Lancaster.

Três da tarde mais quinze minutos; as luzes piscam antes de serem apagadas e ao som de gritos frenéticos, assobios e batidas selvagens com os solados dos sapatos da platéia começava a projeção dos trailers que antecediam o filme. O menino magro, ansioso, a essa altura sentado sobre sua valiosa pilha de revistas, disparava o coração e abrigava as mãos suadas sob as axilas, abraçando a si mesmo. Na boca o chiclete Adams era cruelmente dilacerado pelos seus maxilares tensos. E ele viajava...

Tomava de assalto galeões espanhóis repleto de tesouros, espetava com sua espada as barrigas dos inimigos e beijava com paixão aquela boca gostosa da Cláudia Cardinalle.

Cinco e trinta da tarde: depois de muito gritar, se emocionar, assobiar e bater palmas aquela platéia suada era, enfim, regurgitada pelos portões laterais do velho 4 de Setembro.

Bem mais tarde, deitado no seu quarto e já vencido pelo sono, adormeceria roído de ciúmes do perigosíssimo Burt Lancaster – o verdadeiro proprietário da sua amada. Mas a vingança viria em forma de sonho, onde o menino magro se transformava no “terror dos mares caribenhos”, navegando sob a inconfundível bandeira negra e tendo nos braços, agora musculosos, sua desejadíssima Cláudia Cardinalle.
 
THE END 
 

Poncion Rodrigues
24.07.2007



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