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GASTOS COM ASSISTÊNCIA


O insustentável custo da sáude nas empresas

Publicada em: 05/08/2005



Um dos itens mais corriqueiros dos pacotes de benefícios oferecidos pelas companhias – a assistência médica subsidiada para funcionários e dependentes - está colocando o mundo empresarial numa encruzilhada. Garantir o plano de saúde é uma das práticas de recursos humanos mais difundidas e um item decisivo de atração e retenção de talentos. O benefício é valorizadíssimo pelos funcionários - o mínimo por ano que eles esperam de uma empresa com uma política decente de recursos humanos. No Brasil, país onde a classe média gasta 10% do orçamento familiar com saúde – e no qual o sistema de atendimento público é absolutamente precário -, vincular-se a um plano empresarial sempre foi uma alternativa bem mais atraente do que pagar um plano privado do próprio bolso.

O problema que assombra as empresas aqui e lá aqui e lá fora é que a assistência médica está se tornando um benefício financeiramente insustentável. Estima-se que os gastos anuais das companhias americanas com esse item alcancem 389 bilhões de dólares. Se a economia dos Estados Unidos mantiver o ritmo atual de crescimento, em 2008 uma grande corporação americana típica gastará com o plano de saúde o equivalente a todo o seu lucro, segundo estimativa da consultoria McKinsey. No Brasil, dos 40, 7 milhões de beneficiários de planos de saúde, quase 30 milhões - mais de 70% do total - são vinculados a planos contratados por empresas.

O Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o sistema privado de saúde movimentou 31.4 bilhões de reais em 2004.  A conta paga pelos planos coletivos atingiu 23 bilhões de reais. Considerando que as companhias subsidiam, 80% desses custos, o valor que saiu do caixa das empresas para financiamento da assistência médica de seus funcionários no ano passado foi de cerca de 18 bilhões de reais. Isso equivale a 25% da soma dos lucros das 500 maiores empresas do país e a 45% do orçamento do Ministério da Saúde para 2005. A assistência médica é o segundo maior gasto do departamento de recursos humanos das companhias, depois dos salários. Num levantamento realizado no Brasil pela consultoria de recursos humanos Mercer no final de 2004, um terço das 324 empresas consultadas afirmaram que as despesas com o plano de saúde corresponderam a mais de 9% da folha de pagamento nos 12 meses anteriores. Houve casos em que o valor beirava os 20%.

Essa seria uma notícia ruim se não houvesse outra pior: esse custo só tende a aumentar, graças principalmente à combinação explosiva de dois fatores - a evolução da medicina e o envelhecimento da população. As novas especialidades e tecnologias resultam em diagnósticos precoces, aumentam as possibilidades de tratamento e cura e contribuem para ampliar a expectativa de vida. Isso é maravilhoso. O lado perverso da história é que esses avanços se traduzem num aumento exponencial dos custos relacionados à saúde. As novas tecnologias, mais caras, exigem altos investimentos e não substituem as antigas. E a população, mais velha, demanda mais consultas, exames, medicamentos e internações.

O resultado é que a inflação médica tende a se manter acima da inflação média, o que toma o financiamento da saúde um dos grandes desafios deste século. Segundo a ANS, a média de aumento nos preços dos planos coletivos atingiu 11,69% entre maio de 2004 e abril de 2005. Num universo de 234 empresas consultadas numa pesquisa da consultoria de recursos humanos Towers Perrin, o percentual médio de aumento do custo da assistência médica foi de 12,78% em 2004 – para uma inflação correspondente de 7,6%, de acordo com o IPCA. Para as empresas que oferecem o benefício, isso significa que o valor desembolsado para pagamento do plano de saúde tende a crescer mais do que o preço dos produtos ou serviços vendidos por elas no mercado - e provavelmente mais do que muitas de suas despesas operacionais. As companhias americanas hoje pagam 63% mais pela assistência médica do que há quatro anos e 87% mais do que há oito anos. Alguns economistas já apontam o custo proibitivo da saúde nas empresas como um fator inibidor de contratações e reajustes nos salários,

A situação é ainda mais dramática do ponto de vista da assistência aos aposentados. A questão está no centro da grave crise enfrentada pela General Motors. No passado, o gordo pacote de benefícios oferecido aos trabalhadores sindicalizados rendeu à maior montadora do mundo o apelido de "Generous Motors", Em abril deste ano, Richard Wagoner, o principal executivo da GM, anunciou um prejuízo trimestral de 1,3 bilhão de dólares, "Os gastos com planos de saúde estão comprometendo a nossa competitividade", afirmou Wagoner na ocasião. Segundo ele, 1.500 dólares de cada automóvel vendido pela empresa são usados para financiar a assistência médica dos trabalhadores.

A GM, que chegou a ter 600.000 funcionários nos Estados Unidos no final dos anos 70, passou por décadas de enxugamento e hoje possui 2,5 aposentados para cada funcionário ativo. São 450 000 pessoas, entre aposentados e seus familiares, que permanecem vinculados ao plano de saúde graças ao acordo firmado entre a companhia e o sindicato UnitedAuto Workers. A GM calcula que precisará gastar 5,6 bilhões de dólares com o benefício-saúde só neste ano, Recentemente, durante as negociações com o sindicato sobre mudanças no benefício, a empresa anunciou o fechamento de quatro fábricas nos Estados Unidos e a demissão de 25 000 empregados.

O número de empresas americanas que oferecem planos de saúde a aposentados caiu de 40% em 1993 para 21 % em 2003. No Brasil, somente 19% das empresas consultadas pela Mercer afirmaram oferecer o benefício a esse público. A lei brasileira que regulamenta o setor de saúde suplementar determina que o funcionário que participou do custeio da assistência médica durante mais de dez anos tem direito a permanecer no plano da empresa com cobertura vitalícia. Nesse caso, ele assume integralmente o gasto mas sua permanência na mesma carteira dos empregados ativos joga para cima o custo médio do plano.

O ponto que mais preocupa os especialistas é a contabilização dos compromissos assumidos pelas companhias em relação a seus futuros aposentados. As normas de contabilização nacionais e internacionais determinam que as empresas devem reconhecer nos seus balanços o passivo atuarial. Referente aos benefícios pós-emprego, como aposentadoria e seguro-saúde. "Esse passivo é uma questão preocupante, especialmente para as companhias públicas", diz o consultor Francisco Bruno, da Mercer. Depois de rever os cálculos da expectativa de vida de sua população, a Petrobras divulgou em fevereiro deste ano um rombo de 13,3 bilhões de reais em suas
contas - 8,29 bilhões referentes ao fundo de pensão e 5,01 bilhões relativos ao plano de saúde. A companhia prevê que irá desembolsar 1, 7 bilhão de reais em 2005 com a assistência médica dos empregados ativos, aposentados e familiares.

Tudo isso significa que as empresas poderão deixar de subsidiar a assistência médica dos funcionários num futuro próximo? Os especialistas são unânimes na resposta: não. Mas tudo indica que a saúde vai se transformar num dos mais desafiadores itens de controle de custos para as empresas. "As companhias precisarão administrar os custos relacionados à saúde da mesma maneira que aprenderam a controlar seus custos operacionais", diz o médico Reynaldo Brant, presidente da Associação Nacional de Hospitais Privados(Anahp). "O complicado é que as competências aí são precárias." Na tentativa de desacelerar o ritmo de aumento dos gastos, um número crescente de empresas está revendo o desenho de seus planos. O ltaú, por exemplo, decidiu em junho passado romper o contrato com a Sul América e implementar um sistema de autogestão para os cerca de 50 000 beneficiários do plano do banco na Grande São Paulo. Motivo: a conta da saúde de funcionários e familiares passou de 103 milhões de reais em 2002 para 189 milhões em 2004 – e deve chegar aos 240 milhões em 2005.

"É um aumento que, no longo prazo, não temos como manter", afirma Fernando Tadeu Perez, diretor de recursos humanos do Itaú. A partir de agora, é o banco que vai distribuir carteirinhas, efetuar reembolsos e negociar os contratos diretamente com hospitais, laboratórios e médicos. Essa rotina ficará a cargo de uma equipe de cerca de 30 pessoas, responsáveis também por desenvolver programas de qualidade de vida. O Itaú reduziu o número de operadoras contratadas no mercado para cuidar da assistência médica dos funcionários do interior de São Paulo e de outros estados. "Dois anos atrás, o plano era uma colcha de retalhos e chegamos a ter 70 prestadores de serviços em todo o país", diz Perez. "Agora são apenas cinco”.

Com o aumento dos gastos com saúde, a tendência é que uma parcela maior da conta vá parar no contracheque dos funcionários. A co-participação, na qual o usuário paga um percentual das despesas com consultas e exames, é a alternativa número 1 das empresas na hora de rever seus planos. Na pesquisa da Mercer, 48% das companhias afirmaram adotar algum modelo de co-participação. Numa pesquisa da consultoria Watson Wyatt com 31 empresas dos setores de energia, telecomunicações e gás, o índice foi de 94%.

A subsidiária brasileira da PepsiCo optou pela co-participação depois de observar que a média de consultas e exames feitas pelos funcionários era 50% superior à recomendada pela Organização Mundial de Saúde. Agora seus executivos pagam 30% dos gastos sempre que procuram o médico ou o laboratório. "O sistema tem um caráter educativo importante", diz Júlio Cesar Pegorini, gerente de recursos humanos da PepsiCo. "É também mais justo porque, no nosso caso, quem não usa não paga nada." Funcionários e familiares receberam cartas e orientações sobre a mudança. No início deste ano, foi enviado um extrato que compara os gastos com o plano antes e depois da co-participação. "Como a assistência médica mexe com a saúde e com o bolso das pessoas, qualquer alteração precisa ser comunicada com transparência para não afetar a satisfação", diz Laiz Perazo, consultora da Towers Perrin. Segundo Pegorini, a mudança na PepsiCo reduziu o índice de utilização do seguro-saúde - dado usado pelas seguradoras na hora de renegociar seus contratos - em cerca de 20%.

Implementar a co-participação pode ter impacto nos custos num primeiro momento, mas está longe de resolver definitivamente o problema. "As medidas de efeito duradouro são muito mais complexas", afirma Marcio Zanetti, consultor da Watson Wyatt. "Elas exigem que as empresas conheçam detalhes da utilização dos serviços e acompanhem mais de perto a saúde dos funcionários”.  Na operadora de celular Vivo, a área responsável por essas questões tem status de diretoria. O departamento analisa diariamente relatórios sobre o número de exames e consultas feitos pelos funcionários, as especialidades médicas mais procuradas e os gastos com laboratórios e hospitais. A empresa possui dez ambulatórios espalhados pelo país e uma equipe de 14 médicos. "Acompanhamos cada detalhe na ponta do lápis", diz o médico Michel Oaud, diretor de qualidade de vida da Vivo. "Na minha opinião, a medicina não é cara, é mal gerida."

A Vivo sabe, por exemplo, que o principal item de custos no seu plano de saúde são as internações, responsáveis por 80%dos gastos. Por isso, seus médicos acompanham pessoalmente os pacientes de maior risco e os casos especiais. Alguém precisou ser internado? Um médico da Vivo vai para o hospital. Lá ele confere não apenas se o tratamento está adequado. Pode checar também, por exemplo, se a lista de materiais solicitada para uma cirurgia não possuí itens desnecessários. "Assim, garantimos um atendimento de qualidade ao paciente e administramos também os custos”, diz Daud. Segundo ele, o programa de gestão de saúde da Vivo fez com que o gasto de assistência médica Por funcionário caísse, em média, de 89 reais em 2003 para 69 reais no ano passado.

Na subsidiária brasileira da Convergys, multinacional da área de tecnologia, o que mais pesa na conta do plano de saúde não são as internações, mas as consultas e os, exames. Recentemente, a empresa fez um levantamento sobre a utilização do plano de saúde. Descobriu que, em um ano, foram feitos mais de 200 atendimentos em prontos-socorros. Houve casos em que o funcionário fez mais de 20 visitas ao PS. "É um atendimento que chega a ser 60% mais caro do que uma consulta ambulatorial", diz José Carlos Nascimento, gerente de recursos humanos na Convergys.

Administrar a utilização é uma das questões mais complicadas para as empresas. O funcionário mal orientado pode achar que a carteirinha do convênio é como um cartão de crédito sem limites. "Como o funcionário paga e tem direito ao serviço, ele usa - mesmo que esteja sadio", diz o médico Marcos Bosi Ferraz, vice-presidente do conselho de  dministração do laboratório Fleury e professor da Universidade Federal de São Paulo. "O limite entre o uso racional e o absurdo nem sempre é claro." No ano passado, três funcionários da Convergys decidiram fazer cirurgias de redução do estômago. Detalhe: o procedimento chega a custar 60 000 reais. "Tivemos de programar as cirurgias de forma que elas não interferissem demais na média dos gastos", diz Nascimento. "E já convencemos uma pessoa de que a cirurgia não era o mais adequado para ela”.

Para conseguir administrar melhor as despesas com assistência médica, as empresas vão precisar de funcionários cada vez mais conscientes da importância dos cuidados com a saúde. "Não há outro jeito: além de uma parte dos custos, as companhias vão transferir também a responsabilidade para as pessoas", diz Laiz, da Towers Perrin. Na Convergys, os funcionários são informados sobre os gastos da empresa com o plano e recebem orientação sobre nutrição e atividades físicas. No Itaú, há uma programação trimestral de palestras sobre cuidados com a saúde. No início de junho, o médico Dráuzio Varella falou para centenas de funcionários do banco. "Sem cuidados adequados, um terço dessa platéia vai morrer do coração ou de doenças cerebrais", afirmou o doutor Dráuzio. "Não é praga, é estatística. A saída? Adotar um estilo de vida saudável."

Nos Estados Unidos, há empresas que pagam bônus para funcionários que se mantêm saudáveis e gastam menos com assistência médica. "A prevenção é importante, mas seu retorno é difícil de medir e não acontece no curto prazo", diz o consultor Bruno, da Mercer.  "As empresas deveriam investir primeiro em gerenciamento da saúde - e usar as economias para investir em prevenção."

Por Cynthia Rosenburg- extraído da Revista Exame


 



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