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O convívio solitário com a razão

Semmelweis começou a aprofundar suas observações, e logo constatou, impressionado, que a diferença estava na higiene.

Publicada em: 01/04/2005



“Lave as mãos, menino... Cuidado menina, lave esta fruta... Olhe menino, vá lavar este ferimento !” Esta lenga-lenga atual de qualquer mãe, em qualquer lugar do mundo, soaria como um absurdo há menos de 150 anos, mesmo na cidade que era, então, o mais desenvolvido centro médico do mundo: Viena, capital da Áustria. Isso mesmo, enquanto hoje é no mínimo ridículo lembrarmos a importância de alguém lavar as mãos antes, por exemplo, de uma refeição, há um século e meio seria inaceitável para um cirurgião que se dissesse que deveria lavar as mãos antes de operar alguém.

Ignác Semmelweis era um rapaz nascido numa pequena cidade da Hungria, que após terminar seu curso de medicina passou a residir, em 1847, na cidade de Viena, tendo ido trabalhar na maternidade de Klin. Muito observador, o jovem médico logo percebeu que havia algo de errado, pois era muito estranho para ele o fato de que muitas mulheres apresentavam, logo após o parto, um quadro de febre seguido de morte. Era muito comum que pobres mulheres entrassem hoje na maternidade para terem seus filhos, e na semana seguinte estivessem no necrotério.

O que causava mais estranheza a Semmelweis era o fato de que na maternidade de Bartch, na região interiorana de onde tinha vindo, a ocorrência de morte de mães gestantes por complicações do parto era infinitamente menor. E ele então começou a comparar os dois hospitais, e logo uma diferença chamou-lhe a atenção: na maternidade na qual uma mulher em cada duas morria, o parto era feito por médicos; enquanto na outra (na qual poucas mulheres faleciam) os partos eram realizados por parteiras. Caramba, pensou ele, em princípio não são os médicos que estão melhor preparados ...?

Semmelweis começou a aprofundar suas observações, e logo constatou, impressionado, que a diferença estava na higiene.

Isso mesmo, enquanto as parteiras faziam exclusivamente partos, com suas bacias de água morna do lado, nas quais constantemente lavavam suas mãos; os médicos andavam pelo hospital limpando-se nos aventais que usavam, enquanto circulavam de um local para outro - aqui dissecando um cadáver, ali drenando um abscesso cutâneo, acolá amputando uma perna. E logo, em seguida, realizando mais um parto, com as mesmas mãos, limpas no mesmo avental. Achei !, exclamou Ignác, e sem saber desafiou a severa ordem médica,  iniciando, assim, sua rápida e implacável jornada rumo à loucura !

Convencido de que o segredo estava na limpeza (coisa de que a medicina de então não tinha conhecimento; afinal Pasteur ainda não surgira), resolveu encarar: comprou sabão, instalou pias nas proximidades das salas de parto, e conseguiu obrigar alguns médicos a lavar as mãos antes e após realizarem operações. Os resultados foram imediatos: na enfermaria de Ignác a mortalidade que era de 1 em cada 2 gestantes, passou a 1 em cada 25 !

Mas não adiantou. Os outros médicos conseguiram que a diretoria da maternidade de Klin demitisse o jovem médico criador de confusões e desafios; as pias e sabões foram jogados fora, e voltou-se a matar gestantes.

Ignác continuou sua batalha, e então as portas se fecharam: o arrogante mundo médico da Europa passou a persegui-lo, suas teorias anti-sépticas foram rejeitadas, e finalmente seu direito de exercer a medicina foi cassado! A solidão, a miséria e a loucura fizeram-lhe o resto: aos 47 anos de idade, invade uma sala de dissecção de cadáveres na faculdade de medicina de Viena, corta pedaços de um cadáver, fere o próprio braço com a mesma lâmina de bisturi, e morre 2 semanas depois, acometido por febre intensa e alucinações.

“Lavem as mãos”, era só o que dizia Ignác Semmelweis nos dias finais de sua agonia. Agonia que resultou da convivência solitária com a verdade e a razão.

Leitura recomendada:
A VIDA E A OBRA DE SEMMELWEIS
Louis Ferdinand Céline
Editora Companhia das Letras, 147 páginas.



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