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Não carregue todas as culpas

Destrinchar as fontes de culpa tem sido um desafio dos especialistas em comportamento. Aprender a lidar com elas seria o próximo passo.

Publicada em: 09/06/2010



Não faço exercícios
Não sou solidário
Não me alimento direito
Não controlo meus gastos
Não entendo a tecnologia
Não tenho tempo para os meus filhos
Não levo uma vida sustentável
Não me empenho nos estudos
Não rendo o que poderia no trabalho


Você tem dado atenção suficiente aos seus filhos? Cuida da saúde? Consegue cumprir todas as metas no trabalho? Leva uma vida sustentável? Faz algum tipo de trabalho voluntário? Tem investido na sua capacitação profissional? São poucas as pessoas que conseguem responder a todas essas questões com um sonoro e convincente sim.

Entre as que dizem não, muitas se sentem invadidas por uma sensação de decepção consigo mesma. E do incômodo inicial nasce um sentimento mais perene, profundo e complexo: a culpa.

Culpa por não ficar com os filhos, por não fazer atividade física nem se alimentar direito, ou por deixar para depois aquela pós-graduação ou curso de línguas que iria impulsionar a carreira. A culpa é uma incômoda companheira da contemporaneidade.

?Temos a impressão de que somos permissivos, o que, em tese, reduziria as expectativas e diminuiria a sensação geral de culpa?, diz Oswaldo Giacóia Júnior, professor do Instituto de filosofia e Ciências humanas da Universidade de Campinas (Unicamp). ?Mas essa permissividade é só fachada.?

Sob o manto dessa suposta liberdade crescem expectativas cada vez mais numerosas e subjetivas, como a do corpo perfeito, do sucesso profissional e da família da propaganda de margarina, que funcionam como grandes forças geradoras de ansiedade. Estamos num tempo da cobrança insistente por um ideal que muitas vezes não sabemos nem qual é.

Destrinchar as fontes de culpa tem sido um desafio dos especialistas em comportamento. Aprender a lidar com elas seria o próximo passo. Todo método que pretende ajudar a encarar as manifestações do sentimento parte de sua origem.

De maneira geral, a semente está no desejo da perfeição ? física, profissional, pessoal ou espiritual -, que por ser inatingível, leva à frustração, mas no processo nos força a ultrapassar nossos limites. São muitos exemplos que mostram quão distantes estamos de abandonar metas impossíveis.

O aumento de casos da chamada síndrome burnout, uma espécie de esgotamento intelectual e físico, é um deles. Embora não haja estatísticas consolidadas sobre o tema, sabe-se que entre 1998 e 2008 o número de trabalhos acadêmicos sobre o assunto subiu de 231 para 390, segundo TransInsight, entidade que cataloga documentos científicos.

E nos consultórios também cresceu a procura por tratamento. ?Não é só o diagnóstico que ficou mais fácil, o número de casos também vem aumentando?, explica Duílio Camargo, da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt).

As vítimas do burnout geralmente chegam ao médico submersas em responsabilidades e metas impossíveis. Insônia, dores de cabeça crônicas e distúrbios gastrointestinais são alguns dos sintomas. ?Embora o diagnóstico surja à luz do esgotamento profissional, é muito comum identificar o stress generalizado em quem sofre do mal?, afirma Camargo.

Faz sentido, visto que os sintomas afetam a vida como um todo. ?O mundo moderno exige super-homens e supermulheres?, diz ele. E superespécimes humanos. A exigência de beleza física é outro lado da busca pela perfeição.

A evolução das cirurgias plásticas estéticas no Brasil mostra isso. Segundo pesquisa da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, entre 2007 e 2008 foram feitos 629 mil procedimentos no País, 72,7% foram intervenções estéticas.

Vale tudo na busca pelo ideal de beleza, que, quando não é atingido, deixa latente o sentimento de culpa.

Essa sensação também cria uma fantasia de controle sobre o caos que é a vida. ?É comum as pessoas dizerem por que elas não agiram de determinada maneira?, explica o psiquiatra Júlio César Walz, do Hospital das Clínicas de Porto Alegre.

Como se dependesse somente delas o sucesso ou o fracasso de um negócio ou relacionamento. ?É existencialmente desagradável perceber que as coisas não estão tão condicionadas ao que se faz a respeito delas?, afirma Paulo Sergio Rosa Guedes, psiquiatra e co-autor com Walz do livro ?O Sentimento de Culpa? (Ed. Walz, 2009).

Mas isso não significa que devemos desistir de combater as manifestações incômodas desse sentimento. Sob as questões existências habita a praticidade da vida diária, com culpas que dominam nossa rotina de maneira desproporcional. E, para alguns, lidar com elas é mais difícil do que pra outros.

Homens e mulheres têm diferenças fundamentais nesse sentido. Para começar, elas carregam mais pedras do que eles. O último estudo a confirmar essa crença popular foi publicado em 2010 no ?Spanish journal of psychology`, pela Universidade do País Basco?.

A pesquisa também apontou que não há nada físico que predisponha as mulheres para a culpa ou imunize os homens dela. A diferença seria cultural, não biológica. Elas sentem mais culpa porque foram criadas para isso. A sociedade exige que as mulheres assumam mais responsabilidades e isso escancara a porta de entrada para a culpa.
 

Fonte: ISTOÉ
Enviado por Maria Gorete ? Psicóloga - Prontomed Infantil
Edição: F.C.
09.06.2010



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