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Médicos, por favor, não se esqueçam de lavar as mãos

Publicada em: 21/03/2006



Pergunte a qualquer médico sobre hospitais e ele lhe dirá: se possível, mantenha distância deles. No século 19, James Simpson, um professor de cirurgia em Edimburgo, escreveu que os pacientes cirúrgicos que entravam no hospital ficavam "expostos a mais chances de morte que um soldado inglês em Waterloo".

A situação melhorou muito, mas o conselho permanece válido. A cada ano, na Inglaterra, cerca de 5.000 pacientes morrem de infecção adquirida em hospital, ao custo de 1 bilhão de libras para o Serviço Nacional de Saúde. Nos Estados Unidos, são 45.000 pacientes e U$ 5 bilhões. O Ministério da Saúde da Grã-Bretanha estima que, em algum momento, 9% dos pacientes contrairão uma infecção hospitalar.


As infecções adquiridas em hospital (nosocomias) resultam de vários fatores. Todo dia, milhões de pacientes recebem tratamento hospitalar. Com o aumento da expectativa de vida no Ocidente, muitas delas são pessoas idosas cujos sistemas imunes fragilizados as deixam mais vulneráveis a infecções. As maravilhas da tecnologia, em parte responsáveis pelo envelhecimento da população, se traduzem em incontáveis procedimentos invasivos e igual número de oportunidades para os patógenos pegarem carona em algum dispositivo introduzido no corpo.

A abundância de pacientes, o número limitado de leitos e as pressões para tratá-los com mais rapidez requerem que sejam movidos de enfermaria para enfermaria, hospital para hospital, transportando dessa maneira os patógenos de um lugar para outro. Finalmente, o uso excessivo de antimicrobianos resultou numa proliferação de microorganismos resistentes a drogas, como o Estafilococos aureus.
Sejam quais forem as medidas tomadas, os pacientes sempre estarão sob risco. Essa é a realidade de reunir pessoas doentes num local confinado. Contudo, muito pode ser feito para reduzir a taxa de infecção.

No começo do mês, a Associação Médica Britânica (BMA, na sigla em inglês) divulgou um relatório recomendando que os médicos parem de usar gravata para reduzir as infecções hospitalares. Usadas com freqüência e raramente limpas, elas são, nas palavras do relatório, "colonizadas por patógenos".

Embora gravatas possam ser imundas, o maior problema é a lavagem das mãos, que a BMA considera a intervenção isolada mais importante no controle de infecções. No ano passado, estudantes de medicina do Imperial College em Londres realizaram um estudo de observação secreta dos hábitos de lavagem de mãos de médicos e enfermeiras numa enfermaria hospitalar. Concluíram que a vasta maioria não cumpria os protocolos de lavagem.

Embora não tivessem investigado por que o pessoal hospitalar não lavava as mãos da maneira apropriada, suspeita-se que não seja por ignorância. Lavar as mãos da maneira apropriada, assim como escovar os dentes corretamente (por três intermináveis minutos), é uma atividade terrivelmente maçante e demorada que, num ambiente agitado, pode ser facilmente dispensada por preguiça, esquecimento, ou a crença de que há coisas mais importantes para fazer.

Os alunos observaram também que os visitantes regularmente entravam nas enfermarias sem lavar as mãos e carregando sacos de compras e outros itens, aumentando as chances de importar infecções.
E, claro, os patógenos podem viajar de outra maneira. Um estudo mostrou que aparelhos de televisão alugados para hospitais foram devolvidos contaminados com estafilococos.

Em Toronto, pouco depois da eclosão da Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em 2003, "guardas de higiene" aspergiam as mãos de visitantes duas vezes com álcool gel e lhes tiravam a temperatura antes de permitir a entrada nas enfermarias. O surto havia ressaltado o papel crucial da higiene manual na redução dos riscos de transmissão da doença. Tanto em Taiwan como em Toronto, foram hospitais os responsáveis pelo início e a expansão da epidemia de Sars.

O problema não está somente na invisibilidade do inimigo, mas na inexistência de um claro senso de responsabilidade pessoal se alguma coisa sair errado. Um médico que faz uma operação malfeita se sentirá responsável pelo erro, ao passo que uma enfermeira ou médico que infecte um paciente com estafilococos poderá nem mesmo estar consciente disso.

Visitantes também têm o dever de aspergir as mãos com álcool gel ao entrar e sair de enfermarias, não visitar pacientes quando estiverem doentes (os visitantes), não se sentar na cama durante a visita - e evitar hospitais sempre que possível.


Por Daniel K. Sokol, especialista em ética médica da Faculdade de Medicina do Imperial College, em Londres, e co-autor de Medical Ethics and Law.

Fonte: Estado de São Paulo



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