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UMA CARTA PARA ANINHA


Considerações de um tio sobre as dúvidas existenciais da sobrinha

Muito bem, o que distingue a espécie humana em relação às demais espécies que perambulam sobre a Terra? É a capacidade de pensar. Ou seja, um conjunto de atributos mentais caracterizados pela consciência de si mesmo, pela retenção do passado (atravé

Publicada em: 11/08/2006



Te. 23.jul.2006 (Domingo à tarde).

Cara Aninha,

     Li ontem o texto que produziste no colégio, e me impressionei com o peso das dúvidas existenciais que, aos 13 anos, já carregas sobre os ombros ( “- Qual o nosso destino ?  Porque sinto tanta culpa e tanto medo ?”).
     
     Pensei então, será que não posso ajudar minha sobrinha, ofertando-lhe algumas pequenas chaves da compreensão, com as quais ela, quem sabe, poderá conseguir um pouco de luz ?
     
     Vamos nessa ?

     Muito bem, o que distingue a espécie humana em relação às demais espécies que perambulam sobre a Terra? É a capacidade de pensar. Ou seja, um conjunto de atributos mentais caracterizados pela consciência de si mesmo,  pela retenção do passado (através da memória) e pela capacidade de antecipação de eventos futuros.
     
     E o que distingue os humanos uns dos outros? A diferença principal entre um ser humano e outro está basicamente ligada à sofisticação que cada um atinge na atividade de pensar. 
    
     A grande maioria dos membros da nossa espécie só é capaz de elaborar pensamentos concretos, voltados para as ações práticas: como satisfazer suas necessidades materiais ou fisiológicas imediatas, como fugir de ameaças diretas e facilmente perpectiveis – o negociante que elabora uma estratégia comercial para eliminar ou prejudicar o concorrente; o engenheiro de cálculos ao dimensionar a quantidade de ferro e cimento que deverão ser usados na construção de uma ponte, para que ela não desmorone, utilizam o pensamento concreto.
     
     Dentre a pequena minoria de humanos detentores da capacidade intelectual de construir pensamentos abstratos (ou seja, aqueles pensamentos que habitam um outro mundo, o da inconcretude, da imaterialidade) a maior parte só é capaz de construí-los com um objetivo prático. O arquiteto quando cria, unicamente a partir de sua imaginação; o poeta apaixonado que louva em seu poema a beleza e a bondade da amada – todos usaram sua imaginação e sua capacidade de abstração com um propósito prático, pessoal. Enfim, naquela ação abstrata havia um desejo de realização imediata. 
     
     Agora, ser capaz de desenvolver reflexões abstratas criativas na busca de respostas às grandes questões que constituem o cerne da nossa existência como espécie  ( o que somos ? de onde viemos ? ) sem buscar qualquer vantagem, conquista ou honorário, é pertencer ao seleto, sofisticado e muito raro clube dos detentores de pensamentos filosóficos .
     
     Li teu lindo texto, dotado de estilo e conteúdo de quem já conhece Sócrates, Aristóteles, Sêneca, Tomás de Aquino, Spinoza, Descartes, Hegel, Marx e Millor Fernandes ! 
     
     Hôme, seu menino, tu tá dimais ...
     
     Mas, Aninha, sejamos práticos e modernos, como costumam ser aqueles que pertencem à tua geração: para que diabos serve um Deus que só se preocupa em  vigiar e punir , castigando a tudo e a todos, e sem nenhum senso de humor? E o pior: Deus é como aposentadoria pela Previdência social - só aparece depois que você morre. Enquanto você tá vivo é só uma promessa, uma esperança, para a qual você contribui e se sacrifica em eternas e ilusórias prestações. Aí, quando te aparecem ( a Previdência e a Providência) já não servem mais para nada, não é mesmo ? Olha garota, e quando vejo alguns padres de Teresina falando em Deus com aquela convicção toda, aí é que me convenço mesmo de que ele não pode existir, pois se existisse mandava um raio partir a cabeça daquelas figuras.

     E, se hoje a ciência já explica o essencial, qual a utilidade prática das muletas místicas? É conversa fiada esta história de origem: o universo sempre existiu, e existirá para sempre, em ciclos de expansão e contração; ali energia condensando-se e formando matéria, enquanto acolá planetas e sóis explodem devolvendo energia ao sistema. Do ponto de vista ancestral compartilhamos 99 % dos genes dos chimpanzés e descendemos deles em linhagem direta, primos surgidos ontem, há meros 300 mil anos. 
       
     A que serve um Deus que passa todo o tempo atrás de portas a nos vigiar, ameaçando-nos com medos, culpas e castigos ? Ademais, somos hoje os autores diretos de tudo aquilo que acontece sobre a Terra, para o bem e para o mal. Assim, neste grande espetáculo terrestre temos um Deus “ex-machina” , um ator sulfuroso que desce sobre o palco em roteiro definido pela indústria cultural e pelas grandes corporações religiosas, um verdadeiro pop-star a serviço de entidades caça-níqueis e de instituições políticas conservadoras.  Prolonga-se, assim, a lenta agonia de um sistema social profundamente injusto (veja só, um exemplo de julgamento abstrato) e hiperviolento (aqui, um outro exemplo, agora de julgamento concreto, com base estatística), historicamente condenado à implosão.

      Mas veja, por exemplo, a grande sacada do genial Benedictus Spinoza: nascido aí por volta de 1670, em Lisboa, filho de comerciantes judeus ricos, foi enviado pelos pais a Amsterdã para estudar Teologia (na época um curso que correspondia, em sofisticação e potencial de mercado, àquilo que hoje representa a Informática). Logo o tal de Spinoza mostrou que era o cara ! E escreveu sua primeira obra teológica, a qual  fez muito sucesso, tendo sido aclamada também pelas autoridades eclesiásticas ( figuras que correspondiam a misturas, em doses variadas, dos  Antonios Carlos Magalhães  e Fernandinhos Beira-mar da época). Nesta tese Spinoza propunha uma conciliação entre o obscurantismo religioso e o iluminismo científico, ao dizer: -“quando, através da ciência, o homem entende a realidade do mundo, ele se aproxima de Deus, pois compreende melhor a grandeza da obra divina”.

      Foi uma glória! Agora os cientistas poderiam trabalhar em paz, sem os riscos que correu, por exemplo, o pobre Galileu. Porém, alguns anos depois, imprudentemente Spinoza trouxe à luz uma outra tese, um suposto avanço em relação à anterior, segundo a qual “quando , através da ciência, o homem modifica a realidade do mundo ele torna-se Deus !”  
     
     Foi uma confusão, um verdadeiro deus nos acuda: a Inquisição (a Gestapo de então) resolveu queimar a obra  herética, e seu não menos herético autor. 
      
     Pois é Aninha, fritar judeus não foi invenção dos nazistas. Antes deles a piedosa igreja católica já fazia isto, com requintes de crueldade, do tipo: - “conduzam-no ao fogo, se for inocente  ele não se queimará !” Precavido, Spinoza preferiu não passar pelo teste da fogueira, e fugiu para a Alemanha, onde terminou seus dias como professor de filosofia da Universidade de Heidelberg. 
     
     Aliás, são complicados estes judeus, hem Aninha, que inventaram esse Deus único, maldoso e taciturno, e arranjaram confusões com egípcios, turcos, muçulmanos, romanos, russos, alemães, palestinos e quem mais apareça pela frente, sempre achando que são os filhos prediletos Dele!

     E aqui estamos, há 20 séculos neste nosso Ocidente cujos filhos que se destroem  mutuamente em guerras religiosas e raciais, as quais já mataram mais que qualquer doença ou calamidade natural.

     Vida boa tinham os gregos e os romanos,  com seus mais de vinte deuses (Vênus, Electra, Apolo, Zeus, Mercúrio, e o resto da turma) que, disfarçados sob forma humana, adoravam vir por aqui farrear, beber, namorar, enfim se lambuzar de mel!

     E nada mudou, embora tudo esteja mudado: desde Spinoza as sociedades modernas,  despindo-se destas vestimentas culturais antigas, ricas de misticismo religioso e de ilusões extra-terrenas, substituem-nas pelas suas novas religiões ( o consumismo e o erotismo) praticadas em suas grandes catedrais (o shopping center e a TV). Infelizmente, estas novas religiões também incorporam grandes doses de medos, culpas e castigos.

      É supérfluo buscar um sentido objetivo da existência. Ele simplesmente não existe. O homem não é um elemento dentro de um plano que preside todo o universo. O homem é o produto do mais absoluto acaso que você possa imaginar. O homem está só no mundo, e sua existência se resume a buscar alimentos e reproduzir-se, ao mesmo tempo em que estabelece relações de poder e submissão com os demais.  Não há nada, nem ninguém a cuidar dele. Ele é e será apenas aquilo que for capaz de fazer de si mesmo. 

     Mas não tenho dúvidas de que o conceito de Deus, quando sumir de vez, vai fazer falta, pois embora o homem detenha alguns diferenciais intelectuais sobre os outros animais, ele supera a todas as demais espécies em capacidade de violência, de destruição do meio ambiente e dos seus semelhantes. Os discursos religiosos sobrevivem porque cumprem esta função social, representando um muro de contenção, uma barragem que retém as vagas de agressividade e os impulsos de morte que povoam a mente humana. Quando o homem não tiver a temer mais que a força de um outro homem, voltaremos à barbárie, e o mundo , que começou sem o homem, terminará sem ele.

     E, agora, um pouquinho de humor:

     Imagine-se como um peixinho que nasceu e sempre viveu dentro do mesmo aquário, conversando com seu irmão: “- Tá, mas, se Deus não existe, quem é que muda a água?” (Millor).

     Mas, olha bem, se Deus existe, já armou para que os homens nunca parassem de brigar, senão porque não os fez falando a mesma língua ? (Millor, também).

     Então, Aninha, pouco importa se Deus existe ou não. Se ele não existe, precisamos inventá-lo, fazendo com que os outros acreditem nele. Aqui entre nós, te digo, quando uma criança ri para mim, eu, por um momento, chego a pensar que Deus existe.

     Além disso, o que seria a existência humana sem medos, culpas e castigos? Um tremendo tédio.

     Mas curta a dúvida – só ela ensina. Não aprendemos nada com as certezas!

     Um abraço para minha sobrinha filósofa,

     Tio Zé.
 
Por José Cerqueira Dantas
11.08.06



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