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EVOLUÇÃO


Cientistas concluem que somos muito mais macacos do que se supunha

Publicada em: 24/02/2006



Por Vinicius Romanini (Fonte:UOL)

Você vai compreender melhor esta reportagem se fizer um pequeno exercício mental: esqueça de que é um membro da espécie Homo sapiens sapiens - a espécie humana - e adote um ponto de vista neutro. Imagine, por exemplo, que você é um alienígena enviado ao nosso planeta para estudar um bicho que, ao longo de sua evolução, desenvolveu características que o colocaram numa posição privilegiada na cadeia alimentar e reprodutiva do planeta. Ele tem a capacidade de comer quase tudo e se reproduz em qualquer tipo de ecossistema e clima, graças principalmente a algumas propriedades muito particulares de seu enorme e complexo cérebro. Esse bicho se autonomeou "humano".

Nas ciências aplicadas, esse olhar distanciado é chamado de naturalista porque não parte do princípio de que somos seres especiais, com algum tipo de "essência" divina. Ao contrário, procura nos observar como animais inseridos na natureza da Terra. Foi graças a esse olhar que o biólogo inglês Charles Darwin produziu, no século 19, sua revolucionária teoria da evolução das espécies, colocando os humanos como parentes dos macacos apesar de toda a gritaria que os religiosos fizeram - e ainda fazem - para combater essa idéia.

Também foi Darwin o primeiro a mostrar que os humanos estão muito mais próximos das outras espécies de mamíferos, especialmente dos primatas, do que se supunha até então. Ele descobriu que não existe um corte seco nos separando de outras espécies de animais, mas simplesmente possuímos algumas características que se apresentam em grau mais ou menos intenso - principalmente se comparados a outros tipos de primatas, como os chimpanzés. Posteriormente, os seguidores de Darwin descobriram que emoções, linguagem, inteligência, autoconsciência, capacidade de brincar, de mentir e de amar não seriam atributos exclusivos do Homo sapiens sapiens, mas encontram-se distribuídos em diferentes graus por todo o reino animal.

ESTÁ NA CARA: Nós compartilhamos com os macacos a maior parte das caretas que fazem quando estão com medo, dor ou raiva

Recentemente, o estudo do código genético humano comprovou que os genes do ser humano são 98% idênticos aos de seus parentes mais próximos, os chimpanzés. Isso significa que entre 5 e 7 milhões de anos ambos tiveram um ancestral comum, uma espécie de tataravô primitivo. "Nosso comportamento está enraizado em nossa carga genética e em nossa biologia e a grande pergunta a que devemos responder é como 2% de diferenças genéticas podem explicar as diferenças cognitivas e comportamentais que observamos entre homens e chimpanzés", afirma o biólogo, antropólogo e psicólogo americano Brian Hare, atual diretor do grupo de pesquisa em psicologia hominídea do Institudo Max Plank de Antropologia Evolucionária, em Leipizig, na Alemanha.
As pesquisas atuais mostram que tudo aquilo que no passado acreditávamos serem atributos essencialmente humanos, como o pensamento abstrato, a capacidade de produzir arte ou de ter autoconsciência, pode ser encontrado em algum grau em outros animais, especialmente nos nossos primos macacos. "Não somos seres destacados do resto da vida biológica da Terra, mas a continuidade de uma linhagem que começa com o próprio surgimento da vida e que se estende até os dias de hoje. Antes de sermos humanos, somos bichos. E se possuímos cultura é porque fomos biologicamente preparados para isso", afirma o psicólogo César Ades, professor da Universidade de São Paulo, que aplica a teoria evolutiva de Darwin para entender melhor a psicologia humana.

Se um zoológico de outra espécie nos analisasse, certamente nos veria como um estranho tipo de primata sem pêlos, talvez batizado
de "macaco pelado"

O polêmico zoólogo inglês Desmond Morris publicou, ainda na década de 60, um estudo do animal humano que deu início a uma série de estudos igualmente baseados na etologia e na psicologia evolutiva. "Apesar de todos os nossos progressos tecnológicos, continuamos a ser sobretudo um simples fenômeno biológico. Apesar das nossas idéias grandiosas e das nossas sublimes vaidades pessoais, continuamos a ser humildes animais, sujeitos a todas as leis básicas do comportamento animal", afirma Morris. Recentemente, ele bateu uma vez mais na tecla das raízes zoológicas de nossas ações ao lançar o livro A

VIOLÊNCIA APAZIGUADORA: quando as sociedades ficaram complexas, inventamos o esporte para canalizarmos nossa agressividade natural e diminuir os conflitos

Mulher Nua, focado no corpo e nos hábitos femininos.
Morris e outros etólogos humanos mostram que nossos instintos de sobrevivência e reprodução nos fizeram criaturas complexas e sofisticadas, mas sem jamais nos separar do resto da natureza. E que negar nossa ascendência animal pode ser o caminho mais curto para nossa espécie entrar num beco evolutivo sem saída. "A parte instintiva está sempre interagindo com a racional de forma a garantir nossa sobrevivência", afirma Ades. A seguir, você vai saber como os mais recentes resultados da etologia humana e da psicologia evolutiva parecem concordar com a intuição original de Darwin de que somos bichos, demasiadamente bichos.

 

DO CORPO À CULTURA

Se um zoólogo alienígena usasse os mesmos pressupostos que usamos quando classificamos os animais que descobrimos, não resta dúvida de que seríamos catalogados por nossas características mais óbvias e aparentes. A primeira conclusão a que esse observador neutro chegaria é que o homem é uma espécie de macaco, ou de primata, mais precisamente um parente muito próximo dos atuais chimpanzés.

Estabelecido o fato de que o humano é uma espécie símia, o próximo passo é encontrar as características que o diferenciam de seus parentes, fazendo com que ele seja uma espécie única. O que mais saltaria aos olhos de nosso naturalista alienígena é a de que o humano tem poucos pêlos recobrindo nossa pele. É bem provável, portanto, que essa espécie fosse batizada "macaco-pelado". De fato, é assim que Desmond Morris o nomeia em seus livros. Você pode estar se perguntando, a esta altura, como é possível que um refinado executivo almoçando num restaurante de luxo pode ser comparado a um chimpanzé que você conhece de suas visitas ao zoológico.

Os filhotes humanos aprendem rapidamente a expressar seus sentimentos criando com os pais laços mais duradouros

Essa pergunta é enganadora e mostra como é difícil manter um olhar de neutralidade. Por um mecanismo psicológico, tendemos a ver todos os outros tipos de macacos como semelhantes, enquanto reservamos a nós uma série de qualidades distintivas que nos fazem parecer únicos e especiais. Na verdade, um observador alienígena de olhar neutro provavelmente veria tantas diferenças de aparência entre nós e os chimpanzés quanto as que notamos, por exemplo, entre patos e marrecos. Mas é inegável que algumas diferenças existem e cabe, agora, entender como elas surgiram.

NARIZ DE UM, FOCINHO DE OUTRO: os bebês humanos e os macaquinhos são muito parecidos em suas brincadeiras exploratórias. O estudo comparativo provou que a base de nossa capacidade de aprender é semelhante à dos outros primatas

Sabe-se que a espécie humana começou a se diferenciar dos demais primatas quando abandonou o alto das árvores e optou por explorar as savanas. A partir desse momento, a pressão adaptativa da natureza obrigou a espécie a selecionar qualidades que a ajudassem no novo estilo de vida: começamos a andar de forma ereta para permitir uma maior visualização espacial (fundamental para fugir dos predadores e para caçar comida); nossa coluna vertebral e nossas pernas assumiram uma configuração que permitia mais agilidade, e nossos braços e nossas mãos, liberados de sustentar nosso peso, começaram a se especializar em atividades mais proveitosas, como a coleta de alimentos, o manuseio de armas e, mais tarde, de utensílios.


Boa parte das diferenças fisionômicas entre homens e chimpanzés deveu-se a um truque evolutivo que a espécie humana aplicou com grande maestria: o retardamento da maturação fetal para assimilar como características da espécie adulta de algumas propriedades comuns aos fetos dos primatas em geral. O homem é, de uma certa forma, um chimpanzé prematuro e imaturo, que ajustou seu relógio evolutivo para aproveitar o que lhe servia dessa imaturidade. Isso explica por que somos muito mais parecidos com um feto de chimpanzé do que com um macaco adulto: nossa pele é mais fina, não temos tantos pêlos, nossa face é mais achatada, nosso pescoço é mais alongado e não temos as arcadas protuberantes sobre os olhos como os outros primatas.

Esse dispositivo de infantilização da espécie é chamado neotenia e aconteceu com outros bichos também, embora por motivos bem diversos. No caso humano, a principal força motriz por trás da neotenia foi a necessidade de ter um cérebro maior e capaz de oferecer uma capacidade de processamento de informação condizente com os desafios que os ancestrais do macaco-pelado enfrentavam. A explicação é simples: um cérebro grande precisa de uma cabeça igualmente grande e a anatomia feminina não permite um grande alargamento do canal vaginal por onde nascem os filhotes. No entanto, se o macaquinho-pelado nascer com um cérebro ainda pequeno, poderá continuar seu crescimento lentamente, fora da barriga da mãe, até que seu cérebro atinja o tamanho necessário para realizar as tarefas que sua natureza exige.

Na espécie humana, os bebês nascem com um cérebro que tem apenas 23% do tamanho de um cérebro adulto, enquanto os pequenos chimpanzés vêm à luz com 70% de seu cérebro já formado. É por isso que nossos bebês nascem indefesos e despreparados, exigindo longos anos de atenção por parte dos pais até que atinjam maturidade suficiente para viver sozinhos no mundo. Na maior parte das espécies mamíferas, a passagem da infância para a fase adulta não demora mais do que alguns meses. Em nosso caso, a natureza decidiu nos manter num estágio infantil por muitos anos - talvez mesmo para a vida inteira.

DARWIN NÃO EXPLICA TUDO

É inegável que teoria da evolução de
Charles Darwin tem se mostrado uma ferramenta
de análise poderosa para nos ajudar a entender a maneira como nos comportamos. No entanto, ela se torna perigosa quando é aplicada de uma forma simplista ou deturpada com a clara intenção de forçar os dados da realidade para justificar alguma idéia perigosa. Esse alerta tem sido repetido por antropólogos, sociólogos e filósofos que vêem na aplicação das idéias de Darwin sobre o mundo umaforma de reduzir tudo à esfera da biologia.Os críticos chamam essa visão de darwinismo social e mostram como ela já foi usada, no passado, para justificar todo tipo de atrocidade. Foi a partir dessas idéias que Adolf Hitler imaginou uma raça ariana pura durante a Segunda Guerra Mundial, dando início ao holocausto. O darwinismo social também foi usado pelos generais americanos para justificar a Guerra do Vietnã e não há dúvidas de que muitos militares vêem o mundo como uma luta entre os mais fortes para decidir qual nação é mais apta para liderar o resto da humanidade. O mesmo raciocínio tem sido aplicado sorrateiramente para justificar comportamentos como o estupro e a pedofilia. Na verdade, essas aplicações da teoria evolutiva são impróprias. No caso da guerra, os biólogos ressaltam que o instinto do animal humano não é voltado para a eliminação de seu oponente, mas para o estabelecimento de relações de dominação que são dinâmicas e sujeitas a mobilidades. A guerra de extermínio é um produto da civilização e não de nossos instintos primatas. Além disso, os psicólogos evolucionistas vêem a espécie humana como "biologicamente cultural", ou seja: a cultura não pode ser considerada um simples apêndice da biologia. Ambas interagem e, portanto, comportamentos socialmente proibidos jamais podem ser justificados por motivos puramente biológicos.


Estudos comparativos entre bebês de humanos e de chimpanzés, orangotangos e gorilas mostram que todos eles têm capacidades cognitivas e emotivas muito semelhantes. No entanto, enquanto os recém-nascidos das outras espécies de primatas logo amadurecem e vão cuidar de levar a vida a sério e se reproduzir, nós mantemos nossa mente infantil mesmo quando nosso corpo chega à maturidade. É por isso que somos brincalhões, exploradores e desafiadores - como todo macaquinho que se preze.
De uma certa forma, nós provavelmente inventamos a civilização para proteger nossas crias imaturas dos perigos da selva. E inventamos também as artes, os esportes, o turismo, os videogames e a internet basicamente porque todas essas atividades servem para prolongar, na vida adulta, as emoções de nossa infância de macacos-pelados exploradores.

O homem é um macaco que aprendeu a caçar. A vida de caçador deu forma ao que chamanos de civilização

Talvez a mais sofisticada dessas atividades que satisfazem nossa pueril vontade de explorar o mundo e saber mais sobre as coisas seja o que chamamos ciência - uma brincadeira de descobrir coisas bacanas que se mostrou extremamente útil para nossos objetivos de sobrevivência.

O ZOÓLOGO NA CAMA

NO ESCURINHO: enquanto os macacos se acasalam livremente, o homem transformou o ato sexual em algo privado - basicamente para não atrair concorrentes

Tome como amostragem uma pequena comunidade de humanos e observe detalhadamente o comportamento sexual de seus membros. Anote os diversos tipos de flerte, as brincadeiras sexuais dos pré-adolescentes, as juras de fidelidade entre os namorados apaixonados, a ativa vida sexual entre os casais, as traições, a masturbação, a homossexualidade, e tudo o mais que couber no repertório sexual humano, mesmo aqueles tachados de aberrantes e imorais.

Numa primeira vista, essa complexidade de comportamento pode parecer distante do tipo de sexo instintivo que fazem os outros macacos, mas a verdade é que não há uma atividade sexual que não contribua, de alguma maneira, para a continuidade da espécie humana. "Estamos simplesmente programados para buscar o êxito na reprodução e a história sexual de uma sociedade é a história de sua tentativa de sobrevivência", afirma o zoólogo americano Robin Baker, autor do polêmico livro Guerra de Esperma.

Em seus livros e artigos, Baker descreve com pormenores - que às vezes ruborizam até os cientistas mais naturalistas - como homens e mulheres lançam mão de todos os artifícios que possuem para tentar garantir que seus filhos serão os mais aptos a continuar o jogo. Os homens escolhem as mulheres por atributos de beleza que, na verdade, são indicadores de que ela é uma fêmea saudável e capaz de parir filhos. Por exemplo, os homens se sentem muito mais atraídos por mulheres com rostos simétricos e que exibam uma proporção de 0.7 entre as larguras da cintura e da bacia. Esses seriam indicativos da ausência de defeitos genéticos e boa capacidade de gerar uma prole numerosa. Já as mulheres se sentem atraídas por homens que apresentem vigor físico e que ostentem sinais de liderança e capacidade de obter os recursos necessários para alimentar seus filhos.

Embora a maior parte dos homens e das mulheres tenda a buscar relacionamentos estáveis, que garantam um ambiente favorável para o amadurecimento de suas crias, a natureza também cuidou para que houvesse sempre uma porta aberta para a variabilidade genética, tão necessária para que a espécie explore todas as possibilidades em busca de sua melhoria. A infidelidade é um desses mecanismos, usado tanto pelo homem quanto pela mulher, mas com grandes diferenças de estratégias. Em sua análise minuciosa, Baker (que, ironicamente, afirma "achar" que tem cinco filhos) descreve como a masturbação, tanto nos homens quanto nas mulheres, prepara seus corpos para uma guerra entre espermas do parceiro regular e do amante que ocorre dentro da vagina feminina.

Nessa guerra, enquanto o homem usa a estratégia da quantidade, tentando espalhar seus espermatozóides pelo maior número possível de fêmeas, a mulher sabe que uma gravidez é um evento raro e valioso em sua vida. Por isso, usa táticas muito mais suti. sInconscientemente, ela favorece sempre o esperma do amante, usando uma série de comportamentos que vão da providencial "dor de cabeça" à masturbação solitária para criar barreiras aos gametas do marido, enquanto desbloqueia o caminho dos espermatozóides intrusos."Devido ao mesmo mecanismo evolutivo, a mulher tende a trair seu parceiro durante o período fértil, aumentando as chances de ter um
filho do amante", afirma o psicólogo César Ades.

A postura reta e a formação de casais estáveis mudou completamente nossa maneira de fazer sexo

Ades tem orientado estudos em psicologia evolutiva que confirmam a tese de que nossa natureza biológica ainda tem um papel importante na nossa vida social. Um desses estudos, uma tese de doutorado defendida recentemente por Lucila Campos, analisou os anúncios classificados de pessoas do tipo "homem procura mulher" e "mulher procura homem". "A tese confirmou as previsões da teoria biológica de um interesse maior dos homens por relações de curta duração. Embora haja anúncios de mulheres que procuram relacionamentos de curta duração e sem compromissso, eles são muito menos freqüentes do que os anúncios masculinos do mesmo teor. Mulheres se interessam mais pela capacidade do homem em cuidar dos filhos eventuais. Mesmo assim, uma das descobertas interessantes da tese é que tanto homens como mulheres demonstram prontidão para relacionamentos de curta e de longa duração, com motivações diferentes, e isso não difere do que existe em outras espécies animais", afirma Ades. Não estamos tão longe assim dos chimpanzés.

DA COMIDA À FALA

COMPLEMENTO ALIMENTAR: a necessidade de comer carne parece ter surgido quando nossos ancestrais abandonaram a fartura das árvores e passaram a viver na savana.

O homem é, basicamente, um macaco que se tornou agressivo, capaz de caçar e matar de uma maneira cooperativa que lembra a dos lobos. Além disso, ampliou muito o leque de seu cardápio, se comparado ao de seus primos. Não há praticamente nada na face da Terra que tenha algum valor nutritivo e que seja de alguma forma acessível que não tenha sido degustado por um de nossos ancestrais. A história de como chegamos a essa liberalidade culinária, amplamente ilustrada pelos diversos hábitos alimentares praticados pela espécie humana, vai do frugal pasto de folhas ao extremo caso de canibalismo - que de resto não é tão raro no nosso inventário gastronômico.

O mais ancestral grupo de primata do qual descendemos foram uns pequenos símios que dividiam espaço com os grandes dinossauros, especializados em alimentar-se de insetos. Com o passar dos milhões de anos, enquanto assumiam formas macacóides, esses símios diversificaram sua alimentação incluindo folhas, frutos, nozes e sementes. O passo seguinte foi a introdução da carne, que algumas espécies de primatas comem esporadicamente ao devorar principalmente filhotes de pássaros e pequenos roedores. Quando nosso ancestral deixou as árvores e se arriscou por outros ambientes, tinha diante de si duas alternativas: ou se tornava um bom pastador, capaz de competir com os outros herbívoros que o aguardavam; ou então se tornava um caçador tão bom ou melhor do que os existentes à época, parentes dos lobos e dos felinos atuais.

A fala corresponde a uma parte pequena da nossa comunicação.
A maior parte do que que dizemos sai de nossos gestos e postura

A natureza mais uma vez confabulou a nosso favor, cuidsando para que nos tornássemos bons nas duas alternativas disponíveis. Tornamo-nos excelentes pastadores, capazes inclusive de selecionar e cultivar as pastagens que mais nos interessavam (o que chamamos de agricultura), mas também desenvolvemos habilidades especiais de caçadores. Aprendemos a usar nossas mãos e nossos braços para segurar e golpear com objetos que servissem de armas, enquanto nosso cérebro e nossas habilidades comunicativas nos favoreciam do ponto de vista estratégico: saber apontar com o dedo ou informar com gestos a presença de uma presa nas redondezas se tornou um diferencial evolutivo importante.

A maioria dos primatas continua herbívora até hoje

O próximo passo foi aprender a usar a boca e a laringe para produzir sons com algum significado, dando início ao desenvolvimento da linguagem. Para isso, foi preciso que nossa laringe se retraísse em direção à garganta para criar uma caixa de ressonância capaz de emitir uma variedade de sons. É por causa disso que o primata humano é o único que não consegue beber água e respirar ao mesmo tempo. Para nós, um engasgo pode ser fatal. Essa pequena desvantagem foi enormemente compensada pelas vantagens de se possuir uma linguagem plenamente desenvolvida, o que só aconteceu muito recentemente em nossa espécie. Possivelmente, foi esse um dos motivos que nos permitiram suplantar o Australopiteco, outro hominídeo do passado, cujo aparelho fonológico só lhe permitia emitir gritos e grunhidos.

 

A SOCIEDADE E O AMOR

O que pode haver de comum entre a complexa organização social dos humanos e o modo de vida de um grupo de macacos? Afinal, os humanos constroem cidades com divisão entre os espaços públicos e privados, com regras de convivência bem estabelecidas, com seus rituais de boa educação, com seus gestos de mesuras e com suas leis preparadas para punir aqueles que saem da linha. A etologia mostra, porém, que a organização social humana e seus costumes estão diretamente vinculados ao tipo de macaco que fomos nos tornando quando adotamos o sedentarismo, a formação de casais relativamente estáveis, a caça cooperativa feita pelos machos. "Os tipos básicos de comportamento estabelecidos nos nossos primeiros tempos de macacos caçadores ainda se manifestam por meio de toda a nossa atividade, por mais requintada que ela seja. Por trás da fachada da vida nas cidades modernas, o macaco-pelado não mudou", afirma Desmond Morris.

MACHO DOMINANTE: assim como as fêmeas dos macacos preferem a companhia do macho dominante, também as humanas buscam homens que exibam traços de liderança

Em vez de caçar, o humano hoje vai ao trabalho. Em vez de se abrigar num refúgio com sua companheira e seus filhotes, hoje compra uma casa a prestação. As roupas que usamos surgiram da necessidade de diminuir o estímulo sexual entre membros de comunidades que precisavam se organizar para a caça, em vez de perder energia em disputas sexuais que poderiam se mostrar fatais para todo o grupo.

Boa parte do que chamamos etiqueta segue na mesma direção: tentamos extirpar qualquer conotação sexual dos nossos contatos pessoais para não corromper o grupo de indivíduos agindo cooperativamente em busca da sobrevivência - o que, no fundo, é a essência de toda sociedade humana. São apertos de mão e beijinhos de saudação rigidamente ritualizados, a necessidade de evitar contatos corporais com desconhecidos, risos discretos e, no caso da mulher, a proibição de sentar de pernas abertas ou qualquer outra postura que sugira convite sexual.

O humano macho também desenvolveu níveis de territorialidade. O primeiro é o pessoal, que diz respeito à sua posição hierarquica no grupo. É o que chamamos status. O segundo nível é o território de sua família, que o macaco humano se sente obrigado a defender com a vida, se for preciso. Por fim, há o território do grupo de caçadores ao qual pertence e com os quais ele se alia com laços de lealdade muito fortes.

SINAL VERDE PARA O AMOR
A atração sexual produz respostas involuntárias na forma de gestos e atitudes que são universais na espécie humana.
Veja abaixo alguns exemplos analisados pelo psicólogo Ailton Amélio, da Universidade de São Paulo

SORRIR PARA O OUTRO
Demonstra uma atração amigável, de abertura para a continuidade do contato. Um riso aberto demonstra excitação e alegria.


OLHAR O OUTRO
Numa situação de paquera, os homens costumam fitar intensamente as mulheres que desejam. As mulheres, por sua vez, intercalam seus olhares com gestos de timidez (como abaixar o olhar para o chão), indicando que têm interesse ao mesmo tempo em que demonstram não se entregar de ânimo fácil.

TOCAR MÃO, OMBRO, BRAÇO OU CABEÇA DO OUTRO
Indica interesse e prazer no contato físico, e também desejo de aumentar a intensidade do contato.

INCLINAR O TRONCO
NA DIREÇÃO DO OUTRO

Indica interesse, atenção
e vontade de roximidade.


DESCRUZAR
PERNAS E BRAÇOS

Indica receptividade
para um contato mais
próximo e intenso.


COPIAR A POSTURA
DO OUTRO

Indica entrosamento e
afinidade de interesses.


A formação de associações e clubes masculinos ou irmandades secretas é decorrência da necessidade de o macaco se aliar aos seus pares em cooperativa para atingir objetivos comuns. "As fêmeas ressentem-se muitas vezes quando os respectivos machos saem para se `encontrar com amigos`, e reagem como se fosse deslealdade familiar. Mas fazem muito mal. Porque se trata apenas da versão moderna da tendência milenar da espécie para formar grupos de machos caçadores. Isso é tão básico quanto a tendência para ligações entre machos e fêmeas", explica o zoólogo Desmond Morris.

CARINHO PRIMITIVO: o "catar" comum entre os primatas nasceu como uma necessidade higiênica, mas tornou-se um passatempo que reforça os laços afetivos

O mesmo raciocínio pode ser usado para explicar a necessidade de fazer disputas comerciais, que colocam empresas em lados opostos de um campo imaginário de batalha. Por fim, até mesmo as guerras entre nações podem ser interpretadas como decorrência de nossa vida de primatas caçadores. Nesse caso, é preciso tomar alguns cuidados na interpretação para não cairmos na vala comum do chamado "darwinismo social", que pretende usar a teoria da evolução para justificar o lado negro da civilização, como a guerra de extermínio, o capitalismo desleal e até violências sexuais, como o estupro.
Para provar que por trás da imensa diversidade de culturas desenvolvidas pelo homem pelos quatro cantos da Terra havia uma base universal devido à nossa genética e nosso comportamento biológico, o etólogo austríaco Irenäus Eibl-Eibesfeldt, um dos precursores da etologia humana, registrou em filmes, durante mais de 20 anos, vários tipos de manifestações culturais humanas. Munido com uma câmera com espelho, ele podia gravar imagens de pessoas em festas, como o Carnaval carioca, sem que fosse notado.

"A análise dos filmes deixou claro que as sociedades humanas têm seus vários costumes construídos sobre uma mesma base biológica, ligada à nossa evolução", afirma o psicólogo Ailton Amélio, da Universidade de São Paulo. Autor do livro O Mapa do Amor, Amélio usou estratégias semelhantes para mostrar como a paquera e a conquista sexual utilizam uma linguagem biologicamente definida a partir de sinais, e que os protagonistas dessa "conversa gestual" raramente têm consciência do que estão dizendo (veja quadro na página anterior).

VIDA EM SOCIEDADE: as regras sociais surgiram para atenuar as conotações sexuais de nosso contato pessoal - e assim evitar conflitos que comprometam a sobrevivência

Esses resultados reforçam a tese, lançada pela primeira vez por Desmond Morris há três décadas, sobre nossa natureza profundamente animal. A mensagem dele e de seus seguidores é que reprimir demais nossas origens primatas pode nos levar a um beco evolutivo sem saída. "Nossos instintos reprimidos irão se acumular cada vez mais, até que a barragem arrebente e toda a nossa refinada existência seja afogada pelo dilúvio," conclui Desmond Morris.

PARA IR MAIS LONGE | O Macaco Nu e A Mulher Nua, ambos de Desmond Morris, eds. Record e Globo. | Guerra de Esperma, de Robin Baker, Ed. Record.| O Mapa do Amor, de Ailton Amélio, Ed. Gente.

 

 

O CORPO À SERVIÇO DA EVOLUÇÃO

SOLHOS
Os primatas não-humanos fazem sexo com
o macho cobrindo a fêmea por trás. Entre os humanos, a posição natural passou a ser a de frente, o que mantém os olhos dos amantes em contato. Com isso, os olhos passaram a ser importantes na comunicação dos sentimentos.

BOCA
Quando a espécie humana passou a andar sobre duas pernas, os lábios femininos assumiram uma conotação sexual. Sua cor e volume conotam os lábios vaginais, que ficaram escondidos dos
olhos masculinos.

SEIOS
A fêmea humana tem muito mais gordura no seio do que suas primas macacas. Isso porque eles passaram a compensar o fato de as nádegas femininas ficarem menos expostas quando a espécie se tornou bípede.

CINTURA E QUADRIS
Pesquisas mostram, não importa em que lugar ou
tempo, a proporção entre cintura e quadris femininos que mais atraem os homens é
de 7 para 10. Essa relação indicaria um corpo saudável ideal para a procriação.

BUMBUM
As nádegas da mulher ficaram desprestigiadas quando a espécie humana passou a andar sobre duas pernas. Entre os macacos, é comum as fêmeas terem nádegas coloridas que se incham durante a época do acasalamento, atraindo os machos. O interesse ancestral do macaco homem pelas nádegas femininas se manteve apesar de outras regiões (principalmente os seios) terem produzido compensações. As mulheres sabem disso e procuram valorizar ao máximo seu bumbum. Calças justas, enchimentos
ou dolorosas sessões de exercícios com os glúteos revelam a importância dada a essa parte do corpo.

PÚBIS
Quando o homem se tornou macaco culturalmente complexo, que saía para caçar em grupos, surgiu a necessidade de refrear as disputas em torno da posse das mulheres, principalmente porque a fêmea humana se mantém sexualmente ativa
ao longo de toda sua vida. Esconder os genitais, primeiro mantendo os pêlos e depois com a invenção das roupas, foi uma maneira de refrear a investida dos jovens machos sobre as mulheres dos caçadores.

PERNAS
Há 36 maneiras diferentes
de andar da nossa espécie, dos quais nove são tipicamente femininos. As pernas alongadas chamam mais a atenção porque indicam vitalidade sexual, principalmente se for unida ao andar rebolante, que faz as nádegas se mexerem ritmicamente.

PERNAS
Há 36 maneiras diferentes de andar da nossa espécie, dos quais nove são tipicamente femininos. As pernas alongadas chamam mais a atenção porque indicam vitalidade sexual, principalmente se for unida ao andar rebolante, que faz as nádegas se mexerem ritmicamente.

SEXO E MATERNIDADE
A fêmea humana é a única dentre as primatas que faz sexo durante a gravidez e ao longo do período de amamentação. Isso é explicado pela necessidade de manter o macho por perto durante o longo período em que seu filhote se mantém imaturo e precisando de proteção e cuidados intensos. Do contrário, o macho a abandonaria em busca de outras fêmeas.

 



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