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OBESIDADE


França, Estados Unidos e sertão do Brasil

Publicada em: 08/04/2005



É comum afirmar-se, no Brasil, é que a subnutrição é um problema mais grave que a obesidade. Não é, se considerarmos que ambos são extremamente maléficos em conseqüências para o organismo humano. Em maio e junho de 2000, pesquisadores da Universidade de São Paulo percorreram 12 mil quilômetros pelo Brasil Central, entre Belém e o Rio de Janeiro, com o objetivo de detectar eventuais distúrbios e de tireóide. E chegaram a uma importante conclusão paralela: o número de crianças subnutridas ou desnutridas caiu para menos de 2%. Essa parcela não era formada por vítimas da fome propriamente dita, mas sim por vítimas de maus-tratos em casa ou doenças como a verminose, bronquite asmática, diarréia crônica etc. Para contrariar ainda mais as idéias preconcebidas sobre a desnutrição dos brasileiros, 19% das crianças examinadas já mostravam excesso de peso e 11% eram obesas.
 Se, de fato, na última década, o brasileiro teve mais acesso aos alimentos, isso não significa que essas crianças comiam demais levadas pela gula. Significa, sim, que herdaram uma tendência mais acentuada para armazenar gorduras. Neste aspecto, portanto, as crianças da zona rural do Brasil Central se comportam exatamente como as das grandes capitais.
 Outro paradoxo com relação à obesidade é encontrado na França, o verdadeiro paraíso da gastronomia, mas, à primeira vista, o lugar menos indicado para quem deseja uma alimentação saudável: usa-se gordura de ganso para frituras; a manteiga está presente desde a baguete matinal até os queijos gordos depois do jantar e há ainda muito creme de leite, muitos frios e patês, além de uma infinidade de molhos. No entanto, a taxa de obesidade na França é uma das menores da Europa e a incidência de infartos está na faixa de 40 infartos por 100 mil habitantes. Nos Estados Unidos, essa incidência é de 400 infartos.
 Ora, os americanos se alimentam em fast-foods, falando ao telefone, de olho no relógio. Na França, senta-se à mesa, toma-se vinho, faz-se da refeição uma ritual. Explico: o que interessa não é o que o indivíduo come, e sim o que ele absorve do que  come. Gordura e carboidratos são facilmente assimilados pelo sistema digestivo, mas o mesmo não acontece com as proteínas da carne, que precisam de uma boa mastigação. Ou seja, quem come de qualquer jeito deixa de lado as proteínas que engordam pouco, para absorver toda a gordura e carboidratos que engordam muito.
 Quando comemos, nosso estômago produz uma substância que “avisa” ao nosso cérebro para desativar o centro nervoso que regula a sensação de fome. O problema é que o processo é demorado e, por exemplo, quando o cérebro recebe a informação de que você está comendo, já se pode estar no segundo sanduíche, quando poderia se ter parado no primeiro, se estivéssemos comendo “à francesa”, e não da maneira americana.
 No Brasil, os hábitos alimentares que antigamente se pareciam com os hábitos franceses estão se aproximando cada vez mais do modelo americano. Por sorte, o nosso cardápio tradicional, a partir do arroz, feijão, bife e salada, é muito bem balanceado. Mas, ainda assim estamos nos assemelhando mais e mais aos americanos, que são o povo mais obeso do mundo. Porque comem mal e depressa.
 Seria muito triste constatar que em nosso país estamos trocando o problema da subnutrição pelo de obesidade e os bons hábitos da mesa francesa pelos maus hábitos, apressados, dos nossos irmãos do norte.

Geraldo Medeiros Neto
O autor é doutor e livre-docente em endocrinologia, com pós-doutorado na Harvard Medical School, Mass General Hospital, EUA. É autor dos livros Obesidade, Nova Fronteira Metabólica e O Gordo Absolvido.

Publicado na Revista Medicina Social de Grupo
Ano XVI  N° 179 – OUT/NOV/DEZ 2002 



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