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SUPERAÇÃO


A Volta por cima de uma grande estrela

Publicada em: 17/02/2005



A atriz americana, Kathleen Turner, fala como conseguiu superar o sofrimento causado por uma doença grave a artrite reumatóide.

Ser adolescente nos anos 80 era, também, sonhar com a Kathleen Turner do filme Corpos Ardentes as moças queriam ser como ela; os rapazes desejavam uma namorada como ela (mas não tão famosa, é verdade). Se dependesse apenas de Kathleen, a expressão "loira burra" não existiria. Talentosa, dona de um humor afiado e de uma voz rouca marcante (emprestada a Jéssica Rabit, de Uma Cilada Para Roger Rabit), a atriz americana atuou em filmes de grande sucesso como Peggy Sue Seu Passado a Espera, de Francis Ford Coppola, A Honra do Poderosa Prizzi, de John Huston, e O Turista Acidental, de Lawrence Kasdan, entre outros. Para não falar de suas magníficas atuações no teatro, no qual está para estrear Quem tem medo de Virgínia Woolf?. Ela interpretará Martha, o mesmo papel de Elizabeth Taylor na versão para o cinema. Em 1993, Kathleen viu seu mundo quase desabar, ao ser diagnosticada com uma doença degenerativa grave, a artrite reumatóide, que ataca as juntas e as articulações. Os médicos chegaram a dizer que ela não conseguiria mais andar normalmente. A atriz ganhou peso, entrou em depressão, afundou-se no álcool, mas conseguiu dar a volta por cima. Hoje, aos 50 anos, ela está mais ativa do que jamais esteve nos últimos anos. Katheleen deu a seguinte entrevista.

Pergunta: Como a Senhora descobriu que sofria de artrite reumatóide?  
Kathleen -
Isso foi há onze anos. Eu estava filmando Mamãe é de Morte, quando meus pés começaram a doer muito. Eles incharam tanto que meus sapatos simplesmente não serviam mais. Cheguei ao ponto de só conseguir usar um único par de tênis  e ainda assim, desamarrado. Não tinha idéia do que estava ocorrendo comigo. O primeiro médico que procurei, um ortopedista, fez radiografias das minhas pernas e, basicamente, me disse para comprar sapatos novos. Pouco tempo depois, eu não conseguia mais abrir totalmente os braços e, gradativamente, fui perdendo a capacidade de virar a cabeça. Procurei, então, um médico especializado em tratamento de atletas. Como as imagens dos exames não mostravam nada, ele me sugeriu uma cirurgia do tipo exploratória. Eu, obviamente, recusei seguir esse caminho. Continuei a me sentir mal durante a maior parte do tempo. Tinha constantemente febre baixa e minha energia se esvaiu. Para resumir, só depois de um ano do aparecimento dos primeiros sintomas é que obtive o diagnóstico correto, por meio de um exame de sangue.

Pergunta: E qual foi sua reação ao receber a notícia?
Kathleen -
Senti medo, mas também alívio: finalmente minha doença tinha um nome. Lembro que, no dia em que eu recebí o diagnóstico, fui a uma reunião de pais na escola da minha filha. Sentei numa dessas cadeiras pequenas que as crianças usam e, ao final do encontro, não conseguia mais me levantar. Eu sentia muita dor. À quela altura eu praticamente não andava ou segurava objetos. Na época, os médicos chegaram a dizer que talvez não voltasse a andar normalmente. Foi horrível.

Pergunta: A senhora nunca se deixou abater?
Kathleen -
Quando me disseram que eu poderia deixar de andar como qualquer pessoa saudável, fiz uma verdadeira romaria pelos consultórios dos melhores reumatologistas de Nova York. Foram anos de coquetéis de drogas pesadas, com efeitos colaterais terríveis. Como a artrite reumatóide é uma doença auto-imune, os remédios que existiam até então eram supressores do sistema imunológico- o que, obviamente, debilita muito. Testei todas as combinações e dosagens possíveis. Ganhei peso e entrei em depressão. De uns cinco anos para cá surgiram outros remédios e informações mais acuradas sobre a doença. Hoje sei, por exemplo, que a doença também tem uma origem genética. Alguns momentos foram demasiadamente sofridos, mas nunca perdi o otimismo. Há alguns anos, quando as manifestações da doença ainda eram muito presentes, eu estava na piscina, andando de um lado para o outro, quando consegui abrir os braços. Comecei a rir sozinha, plantada no meio d’água. O coitado do salva-vidas ficou até assustado.

Pergunta: Sua vida mudou muito depois da doença?
Kathleen -
Costumo dizer que essa é uma doença que não acaba com sua vida, mas com o seu estilo de vida. Na época do diagnóstico, tínhamos uma linda casa, mas eu não conseguia subir as escadas. Fomos obrigados, então, a mudar para um apartamento. Isso sem falar no trabalho, nas relações com meu marido e no dia-a-dia com minha filha. Imagine o que é ter uma filha pequena - a minha tinha 6 anos na ocasião em que tudo começou - dizendo "Vamos mamãe", e você sendo obrigada a responder "Desculpe, não consigo". Não foi fácil vê-la me ajudando. Esse é, afinal, o papel da mãe. E lá estava uma criança cuidando de mim. Tudo é afetado pela dor e pela incapacidade de realizar as atividades mais corriqueiras. No trabalho, passei a escolher os papéis de acordo com o que eles exigiam de mim fisicamente.

Pergunta: Como é seu tratamento hoje?
Kathleen -
Tomo remédios de última geração e faço muita ginástica. Tive muita sorte de poder participar de programas experimentais. Cheguei ao meu médico atual por acaso. Eu estava me arrastando na escada da escola da minha filha, para subir apenas alguns lances, quando a mãe de uma coleguinha dela quis saber o que estava acontecendo. Ela, então, me disse que uma de suas filhas tinha artrite juvenil, uma forma bastante severa da doença, e se tratava com um especialista em Boston. Estou com esse médico até hoje. Ele me ensinou que a artrite reumatóide é uma doença que deve ser combatida diariamente. Comecei a fazer exercícios quase todos os dias, apesar da dor. Nado bastante. Trabalho principalmente ombros, joelhos e cotovelos.

Pergunta: Há esperança de cura?
Kathleen -
O diagnóstico precoce é capaz de evitar lesões nas articulações. Não há, portanto, mais razão para que as vítimas da doença passem pelo mesmo martírio que eu. Tenho confiança de que a cura aparecerá antes que eu morra.

Pergunta: A senhora teve medo de, por causa da doença, não ser mais chamada para trabalhar?
Kathleen -
Sim, muito. Tanto que, por um longo tempo tentei esconder a doença. De certa forma, era melhor que as pessoas achassem que eu tinha problemas com a bebida ou algo do gênero. Afinal de contas, os diretores e produtores estão acostumados a lidar com atores dependentes de álcool e drogas. A grande dificuldade é trabalhar com alguém que tem uma doença misteriosa, sobre a qual pouca gente tem informação.


Pergunta: A senhora extraiu algo de bom da doença?
Kathleen -
  Até ficar doente eu não sabia o quanto condicionava minha auto-estima à minha imagem. Ao me ver combalida, enfrentei uma crise de identidade. Me perguntava o tempo todo: "Qum sou eu? O que será feito do meu trabalho e da minha vida?". Tive de enfrentar isso e priorizar outros aspectos da existência. Agora determino o que posso fazer, o que podem fazer por mim e o que simplesmente não me importa. Meu marido, com quem estou há 20 anos, me ajudou e continua me ajudando muito nesse processo. Hoje sei que posso fazer bem o meu trabalho mesmo que não esteja no auge da minha forma física.

 Fonte: Revista Veja, de 23/06/2004, páginas amarelas, ’A Volta Por Cima’



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