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Os intolerantes querem policiar até o calendário Medplan de humor

Portal Oito Meia publica artigo sobre onda de intolerância nas redes sociais que envolveu cartum do Salão Medplan de Humor 2016.

Publicada em: 10/10/2017



Parece piada, mas a situação simboliza bem o atual e grave quadro de intolerância no país. Uma grande rede de hospitais no Piauí, a Medplan, realiza anualmente um evento com o intuito de divulgar e premiar os profissionais que pensam o humor através de cartuns. Como se sabe – vide o caso Charlie Hebdo – os cartuns e as charges são feitos para pensar, o que também quer dizer que são construídos com o intuito de incomodar, provocar e tirar o leitor da anestesia do senso comum. Nem sempre vão trazer o riso fácil; para isso tem-se os vídeos de youtubers, as pegadinhas do Pânico na TV e os quadrinhos da Turma da Mônica.

Um dos cartuns premiados pelo Salão de Humor Medplan 2016, cujo tema era justamente intolerância, passou a ser compartilhado em vários grupos de Whatsapp e redes sociais esta semana com uma mensagem (adivinhem!), simplista e ignorante. “Medplan de Teresina-PI usando personagens que as crianças adoram para fazer ativismo gay. Divulguem e denunciem”, diz o texto, em caixa alta, quase com um grito da própria estupidez. Junto ao texto, uma imagem do calendário que é feito com as charges premiadas no evento: um Batman e um Superman, se beijam enquanto são observados furiosos pelo Wolverine, personagem da saga X-Men.

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Os personagens da editora norte-americana DC Comics, uma empresa ligada ao grupo Time-Warner, estão – repito – se beijando. Não estão fazendo sexo, nem estão dizendo que ser gay é bom ou ruim. Estão apenas demonstrando afeto. Ninguém que veja dois homens se beijando vai se tornar gay se seu organismo e sua psiquê não tiverem essa natureza. A infantilização sistemática da sociedade brasileira nos leva a um momento em que não prestamos atenção às diferenças e tampouco percebemos os insultos como a ponta de um iceberg maior de radicalismos que objetivam apenas criar um discurso de justificativa para tirar direitos de categorias marginalizadas, como a população LGBT.

A vida não é um filme de faroeste, com mocinhos e bandidos, na qual os gays são bandidos. O humor é a porta para enxergar um mundo menos árido e não podemos deixar que os intolerantes se apossem dele com bandeiras ideológicas que querem levar o país para um poço obscuro e regressivo. Ou como diz o escritor judeu Amos Oz no livro “Como Curar um Fanático” (Companhia das Letras): “Fanáticos não têm senso de humor e raramente são curiosos. Porque o humor corrói as bases do fanatismo, e a curiosidade agride o fanatismo ao trazer à baila o risco da aventura, questionando, e às vezes até descobrindo que suas próprias respostas estão erradas”.

A imagem do Batman e do Superman se beijando, aliás, é usada corriqueiramente na cultura pop. Por exemplo, no ano passado, o artista plástico Rich Simmons, espalhou um grafite pelas ruas de Londres e Nova York, onde Batman e Super-Homem são vistos aos beijos, em uma campanha contra a homofobia.

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O cartum do Piauí compartilhado com a frase de intolerância é um dos trabalhos selecionados por uma comissão julgadora do concurso da Medplan, integrando assim o Salão de Humor sob o tema “Intolêrância”. O Salão de Humor não é voltado para crianças e o calendário tem apenas o propósito de divulgar o trabalho dos artistas que participaram do concurso que incentiva a cultura há nove anos. Há peças infantis, novelinhas do SBT, desenhos da Peppa e demais eventos e produções culturais voltados exclusivamente para crianças, com conteúdos educativos e que ajudarão no desenvolvimento e diversão dos menores. Cabe aos pais fazerem a regulação sob o que os filhos consomem de produtos culturais.

“Um júri popular escolheu, pela internet, as melhores charges inscritas no Salão de Humor 2016. As 12 primeiras colocadas ilustram o calendário de 2017. Deveríamos ter censurado, eliminado essa?”, questiona o diretor da Medplan, José Cerqueira, lembrando que o tema deste ano do Salão de Humor foi “casamento”. Nos anos anteriores foram abordados os seguintes assuntos: intolerância (2016), inveja (2015) fofoca (2014) e mentira (2013). Sugiro que em 2018 o tema seja “ignorância”. Vale a pena refletir sobre ela.

 

Fonte: OitoMeia
Edição: F.C.