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Com 15% dos dentistas do mundo, Brasil tem mercado milionário do sorriso

Famílias brasileiras gastam o mesmo em cuidados orais que as americanas, ainda que a produtividade econômica brasileira seja apenas um quinto da dos EUA.

Publicada em: 2014-12-18 13:16:00



Pensei que já tinha me acostumado à seriedade que os brasileiros dão à limpeza pessoal. Mas levei um susto quando usei o banheiro de um restaurante há alguns meses. Apertei o que achava ser uma saboneteira, mas em vez de sabão um líquido mentolado saiu na minhas mãos. Era enxaguante bucal. Havia fio dental no banheiro também. "Nós (os brasileiros) sorrimos muito. Toda vez que pedimos alguma coisa, nós sorrimos. Quando pedimos desculpas, sorrimos. As pessoas vêem o sorriso como uma espécie de cartão de visita", explica Ronaldo Art, gerente de marketing para higiene oral da Johnson & Johnson no Brasil.

A empresa põe sua marca de enxaguante bucal, de graça em banheiros públicos no Brasil como forma de promover o produto. Trata-se de mais uma estratégia para abocanhar uma fatia maior do imenso bolo do mercado de higine oral no país - que tem crescido a 7% por ano.

Terceiro mercado

Uma pesquisa encomendada pela BBC à empresa de consultoria de marketing Millward Brown revelou que marcas de creme dental estão entre as 20 mais reconhecidas do mundo.

"Historicamente, se você tem um sorriso bonito no Brasil você é uma pessoa rica", diz Eduardo Campanella, diretor de marcas de higiene oral da Unilever Brasil.

"Todo mundo no Brasil carrega uma escova de dentes na bolsa. Na Grã-Bretanha, há uma piada de que apenas os brasileiros escovam os dentes nos banheiros públicos."

Segundo o grupo de análises econômicas Euromonitor Internacional, o Brasil tem o maior número de dentistas do mundo. São mais de 240 mil, o que equivale a 15% dos dentistas do mundo.

Em volume geral, o mercado dental brasileiro é o terceiro do mundo, atras apenas dos EUA e da China.

Famílias brasileiras gastam o mesmo em cuidaddos orais que as americanas, ainda que a produtividade econômica brasileira seja apenas um quinto da dos EUA.

Minha pasta de dente

Com o crescimento do mercado veio um aumento na concorrência e a necessidade de abertura de novos filões. Empresas como a Unilever, por exemplo, investem para transformar a pasta de dente de um produto usado pela família como um todo em um ítem mais pessoal e individualizado.

"Em casa, o homem tem um desodorante e a mulher tem outro. Mas para a higiene bucal, o uso ainda é mais familiar", afirma Campanella.

Um exemplo dessa segmentação são as pastas de dentes alvejantes para bebedores de café e vinho. O mercado, porém, não é fácil de ser domado.

Em 2009, por exemplo, a Johnson & Johnson decidiu explorar a classe média emergente no Brasil, que não usava enxaguante bucal com a mesma frequência dos brasileiros mais ricos. A companhia criou um produto de preço menor. Investiu pesado em publicidade para explicar a importância do uso do produto no asseio bucal.

Porém, através de pesquisas, a empresa descobriu que eram as classes mais altas quem estavam comprando o produto. Não era uma questão de preço: os consumidores preferiam o sabor mais suave.

A solução foi criar uma versão do mais antigo, só que com um sabor atenuado. Um novo produto surgido quase que por acidente.

Já a Unilever viu suas vendas de um produto removedor de manchas nos dentes atingirem o dobro das previsões, o que interferiu com a estratégia de lançamento.

"A demanda cresceu de tal maneira que em vez de fazermos o lançamento por região tivemos que acelerar para o resto do país", explica Marcos Angelili, vice-presidente de marketing.

A desaceleração na economia brasileira não parece assustar o segmento.

"O Brasil ainda é visto como um mercado em crescimento, enquanto a Europa e América do Norte vivem um crescimento mais lento", diz Marcel Motta, analista da Euromonitor. "As principais marcas europeias e americanas estão aqui e imagino que elas continuarão vindo."

Fonte: BBC / Katy Watson
Edição: F.C.